terça-feira, 15 de março de 2022

Clássicos com 'retratos' no enredo principal

 Assistindo a um dos filmes desta lista, me dei conta da quantidade de produções que contém retratos, em sua maioria de mulheres, como um ponto chave do enredo, e achei que seria interessante listá-los aqui no blog. Repare que a grande maioria dos longas é década de 1940, e que este era um recurso bastante usado em longas do subgênero noir. 


Laura (1944)


Dirigido pelo lendário Otto Preminger, este noir é com certeza um dos mais famosos exemplos dentro do tema proposto nesta lista. Dana Andrews interpreta o detetive encarregado de investigar o assassinato da bela executiva Laura, vivida por Gene Tierney. Enquanto apura os depoimentos do melhor amigo e do noivo da vítima, o policial adquire verdadeira obsessão pelo caso. Intrigado e fascinado pelo enorme retrato exposto na sala da mulher morta, descobre-se apaixonado por ela. 


O Retrato de Jennie (Portrait of Jennie, 1948)


Este foi o filme que me inspirou a fazer esta postagem! Aqui, o próprio título já nos mostra a importância do retrato na história. Com direção de William Dieterle, o longa traz Joseph Cotten na pele de um pintor idealista e fracassado. Embora possua certo talento, suas telas não evocam nenhum tipo de emoção especial. Acostumado a reproduzir paisagens e flores, tudo muda quando conhece sua musa inspiradora, Jennie, vivida por Jennifer Jones. De maneira etérea, a personagem surge e desaparece com a mesma rapidez, despertando a curiosidade do artista sobre sua origem. Impressionado com seu rosto melancólico e sua presença quase magtética, ele começa a desenha-la, tentando passar para o quadro todo sentimento que ela lhe desperta; Uma curiosidade interessante é que o quadro não foi importante apenas na ficção. O produtor David O. Selznick, que no ano seguinte a estreia da produção, casou-se com Jennifer Jones, fez questão de levar a pintura para a casa onde viveu com a atriz. Os dois foram casados até a morte dele, em 1965.

O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray, 1945)


Baseado no romance homônimo de Oscar Wilde, o longa de 1945 é apenas uma das muitas adaptações para o cinema deste clássico da literatura. Narra a história do aristocrata Dorian Gray, um jovem de rara beleza, que acaba sendo corrompido por Lord Henry, um homem mais velho que lhe mostra os prazeres da vida boêmia. Tal qual Narciso, ele se encanta por sua própria imagem, imortalizada em um quadro pelo pintor Basil Hallward. Em uma espécie de pacto, no qual o pavor de envelhecer o domina, ele deseja secretamente que o quadro possa sofrer com as ações do tempo em seu lugar, permanescendo assim jovem e belo pela eternidade. Sob a direção de Albert Lewin, a versão foi protagonizada por Hurd Hatfield e George Sanders.

Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window, 1944)


Do mestre Fritz Lang, o longa se inicia com um renomado professor universitário, interpretado por Edward G. Robinson, admirando o retrato de uma linda mulher exposto em uma vitrine. O homem de meia-idade, casado e com filhos, está imerso em seu deslumbramento, quando surge ao seu lado a própria modelo que posou para a pintura. A jovem, vivida por Joan Bennett, lhe explica que vez ou outra vai até o local para observar a reação das pessoas ao se depararem com o quadro. Percebendo a admiração do desconhecido pela obra, ela o convida até seu apartamento para apreciar outros exemplares. Entretanto, os dois são surpreendidos pelo amante ciumento da moça, desencadeando uma tragédia que os une em uma teia de mentiras.

Almas Perversas (Scarlet Street, 1945)


Eis um exemplo claro da arte do cinema e da atuação. Do mesmo Fritz Lang, repentindo os protagonistas Edward G. Robinson e Joan Bennett, assim como o ótimo Dan Duryea como coadjuvante (também presente no filme anterior), aqui novamente temos um retrato em destaque, no entanto, em uma abordagem completamente distinta. Robinson interpreta um típico homem do proletariado, empurrando com a barriga um casamento infeliz, tendo como única distração suas pinturas amadoras. Ao conhecer a femme fatale vivida por Bennett, apaixona-se perdidamente e tenta aparentar uma posição superior a que tem na realidade. Pensando estar seduzindo um pintor famoso e, consequentemente rico, a bela jovem passa a manipula-lo para conseguir artigos de luxo e um apartamento dispendioso. O retrato entra em cena na metade final da trama, por isso não escreverei mais detalhes para não dar nenhum spoiler, já que sua 'participação' é de fundamental importância na história. O longa é refilmagem de 'A Cadela' (La Chienne, 1931), de Jean Renoir.

Inspiração Trágica (The Two Mrs. Carrolls, 1947)


Dirigido por Peter Godfrey, o filme tem como estrelas ninguém menos que Humphrey Bogart e Barbara Stanwyck. O personagem central é Geoffrey Carroll, um pintor americano que mora na Inglaterra. Durante uma viagem, ele conhece uma atraente mulher, Sally Morton, com quem inicia um apaixonado relacionamento. Ao perceber que está fazendo o papel de amante de um homem casado e com uma filha, Sally decide terminar o romance, ignorando as desculpas do amado. Apenas quando Geoffrey torna-se viúvo, os dois voltam à antiga paixão e acabam se casando. Passado algum tempo, ela começa a desconfiar que está sendo traída, ao mesmo tempo em que adoece repentinamente. É quando ela começa a investigar a morte da primeira Sra. Carroll e descobre que está tendo seu retrato pintado pelo marido, assim como aconteceu com sua antecessora.

Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958)


Um dos grandes clássicos de Alfred Hitchcock, o longa é protagonizado por James Stewart, como um detetive aposentado com pânico de altura. Sua volta a ativa ocorre após o pedido de um amigo, que se diz preocupado com o comportamento estranho de sua esposa. O investigador passa, então, a seguir a intrigante mulher, vivida por Kim Novak. A jovem costuma passar diversas horas observando o retrato de uma de suas antepassadas, além de aderir a alguns de seus pertences e costumes, incluindo seu penteado. Acreditando ser uma espécie de reencarnação, ela apresenta tendências suicidas e parece se sentir atraída especialmente por lugares altos, para desespero de seu protetor.

Envolto em Sombras (The Dark Corner, 1946)


Antes de ser Lucy, Lucille Ball já foi atriz de filme noir. Ela interpreta a mocinha da trama, vivendo a secretária do detetive Bradford Galt (Mark Stevens), que o ajuda a escapar de uma armação que pretende incrimina-lo por um assassinato que ele não cometeu. Clifton Webb aparece como o rico Hardy Cathcart, dono de uma galeria de arte. Uma espécie de colecionador, ele se apaixonou pelo retrato de uma mulher anos atrás, não descansando até ter em sua posse a personificação de seu objeto desejo, tendo assim uma obsessão doentia por sua esposa. O longa foi dirigido por Henry Hathaway.

Obsessão Trágica (The Madonna's Secret, 1946)


Um pintor vive nos EUA fugindo de seu passado na Europa, onde foi julgado pelo assassinato de uma de suas modelos e teve sua carreira arruinada. Ele agora trabalha no quadro de um novo rosto feminino mas a mulher que posava para ele é encontrada morta, repetindo o ocorrido anos atrás. Preso pelo homicídio, ele é libertado em seguida pela polícia após apresentar um álibi. A irmã da vítima é convencida pela polícia a se oferecer como modelo para ser pintada pelo acusado e investiga-lo, como um possível assassino em série. Entretanto, sua inspeção tem uma reviravolta quando a moça se apaixona pelo suspeito. Com direção de Wilhelm Thiele, tem o elenco principal formado por Francis Lederer, Gail Patrick, Ann Rutherford e Edward Ashley. Foi inspirado no longa 'Barba Azul' (Bluebeard, 1944).

Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980)


Neste caso, não temos bem uma pintura, como nos outros, mas acho que se enquadra no objetivo da lista, mesmo sendo mais uma fotografia. A história protagonizada por Christopher Reeve e Jane Seymour foi dirigida por Jeannot Szwarc e baseada no romance homônimo de Richard Matheson, que o idealizou após uma experiência de fascínio semelhante, ao ver uma imagem da atriz Maude Adams; O protagonista é um escritor que na noite de estréia de sua peça é abordado por uma senhora, já bem idosa, que pede que ele 'volte para ela'. Após alguns anos, durante uma viagem, ele se depara com a fotografia de uma bela mulher. Depois pesquisar, ele descobre se tratar de Elise McKenna, uma renomada atriz de teatro do início do século, que vinha a ser a mesma senhora que havia conhecido anos antes. Obcecado, ele passa a estudar e se concentrar em voltar ao passado para encontrar a misteriosa mulher por quem se apaixonou. 

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940)


Em outro dos grandes clássicos de Hitchcock e único dirigido por ele a ganhar o Oscar de melhor filme, temos uma jovem simples e sem muitos atrativos, que se apaixona por um rico viúvo. Após o casamento, o casal vai morar na enorme mansão do rapaz, e o que parecia ser o início de um conto de fadas se torna uma verdadeira história de fantasma. Em cada canto da casa, em cada pessoa que encontra, parece predominar presença de Rebecca, a falecida primeira esposa de seu marido. A ausência de sua figura física parece ameaçar ainda mais a protagonista, que passa a temer uma rival invisível. A governanta da casa, que tinha adoração por sua predecessora, é a que pessoa que mais a atormenta com comparações e em uma das cenas usa um dos enormes retratos de família pendurados na parede para causar humilhação e sabotar sua nova patroa. Protagonizado por Joan Fontaine, Laurence Olivier e Judith Anderson, foi baseado na obra de Daphne du Maurier,.

O Fantasma Apaixonado (The Ghost and Mrs. Muir, 1947)


Por coincidência, Gene Tierney voltou para encerrar a lista que se abriu com um de seus filmes, só que desta vez o retrato não é dela e sim de Rex Harrison, que interpreta o fantasma do título. So a direção de Joseph L. Mankiewicz, a atriz vive uma mulher viúva e com uma filha, a procura de uma casa. Ela encontra a moradia perfeita em um encantador chalé, que é oferecido a um ótimo preço por ter a fama de ser assombrado pelo antigo proprietário, um capitão da marinha. Excêntrica e destemida, ela não se amedronta com a lenda e passa a morar no local, que possui uma imagem de seu antigo dono na parede. Não demora para que o espírito apareça e tente intimidá-la. Entretanto, ao contrário dos antigos residentes, que iam embora correndo, a bela jovem não se sente nada amedrontada e passa a desafiar o morto.



Filmes citados que você encontra no YouTube:

O Retrato de Jennie (Portrait of Jennie, 1948) - Clique aqui
O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray, versão de 2009) - Clique aqui
Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window, 1944) - Clique aqui
Almas Perversas (Scarlet Street, 1945) - Clique aqui
A Cadela (La Chienne, 1931) - Clique aqui
Envolto em Sombras (The Dark Corner, 1946) - Clique aqui
Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940)  - Clique aqui
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domingo, 13 de março de 2022

Bagdad Café (Out of Rosenheim, 1987)

 


Um lugar imundo no meio do nada. Uma proprietária negra e rabugenta. Uma mulher alemã de meia-idade acima do peso. Estes certamente não são protagonistas que costumamos ver na grande maioria dos filmes. E é justamente esta fuga total dos padrões que faz com que a história se torne única e encantadora. Dirigido por Percy Adlon e protagonizado por Marianne Sägebrecht e CCH Pounder, 'Bagdad Café' é uma produção da Alemanha Ocidental falada em inglês. Com participação do consagrado Jack Palance e da atriz Christine Kaufmann, foi um sucesso de bilheteria e chegou a ser indicado a vários prêmios internacionais.

*Pode conter spoiler*


Logo nos primeiros minutos do filme, presenciamos a briga de um casal em meio a uma viagem de carro no deserto. A mulher decide ir embora sozinha, levando apenas sua mala, enquanto caminha longos quilômetros pelo chão arenoso com sua roupa completamente inadequada ao clima do local. Não demora muito para descobrirmos que seu nome é Jasmin Münchgstettner. A turista alemã de seus quarenta e poucos anos encontra abrigo em um motel com ares de espelunca, onde também funciona um restaurante e uma parada de caminhões. 


Chamado 'Bagdad Cafe', o estabelecimento é o sustento de Brenda, seu marido, os dois filhos do casal e um neto. A personagem, mandona e mal-humorada, também é apresentada ao espectador através de uma briga com seu parceiro, que acaba indo embora de casa. 


As duas mulheres iniciam seu relacionamento com certa antipatia mútua e suas diferenças culturais ficam bem evidenciadas. A primeira, se mostra uma pessoa extremamente asseada, polida e até mesmo pudica; A outra é seu extremo oposto: Vive em um ambiente sujo e desarrumado, fala alto e não tem zelo algum com sua aparência; Entretanto, elas secretamente também tem suas semelhanças, afinal acabaram de se separar de seus maridos e se mostram sem perspectiva de como escapar do marasmo de suas vidas.

Com o passar dos dias, Jasmin começa a se acostumar com a rotina de seu novo e provisório lar. Timidamente, inicia uma amizade cheia de flertes com o pintor Rudi Cox, que a ajuda a se libertar de seu ar austero e recatado. Ela também conquista a confiança dos dois filhos de Brenda, incentivando o talento musical de Salomo e se divertindo com a jovem e extrovertida Phyllis. 


O Bagdad Cafe também não escapa de seu olhar. Como quem não quer nada, a alemã vai limpando e arrumando um pouquinho aqui, um pouquinho ali, fazendo pequenas melhorias e dando seu toque em diversos detalhes. Com truques de mágica que ensaia sozinha em seu quarto, Jasmin começa a arrebatar a todos e atrair cada vez mais clientes ao restaurante, deixando até mesmo Brenda deslumbrada. As duas então desenvolvem uma forte amizade, onde se completam. Jasmin, antes tímida e solitária, desabrocha e se torna uma estrela aos olhos dos que a conhecem; Já Brenda, que aparentemente era uma verdadeira megera, mostra que era apenas uma mulher desmotivada e cansada de lutar sozinha, sempre cuidando dos filhos e do trabalho sem ajuda. 


Um dos grandes méritos do longa é trazer para as telas duas mulheres completamente fora do padrão que Hollywood estipulou para protagonistas de suas produções. Marianne Sägebrecht interpreta uma mulher quarentona e acima do peso, enquanto CCH Pounder apenas pela cor de sua pele já teria obstáculos suficientes para conseguir um papel principal, como a história do cinema nos mostra até os dias de hoje. De origem alemã, Sägebrecht destacou-se também em filmes como 'Estação Douçura' (Sugarbaby, 1985) e 'Martha et moi' (1990), pelo qual venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza; Pounder apareceu em produções de sucesso, como 'Avatar' (2009) e 'A Outra Face' (Face/Off, 1997), além de diversas participações na televisão, em especial 'NCIS: New Orleans, no papel da perita e médica forense Loretta Wade.



O elenco também conta com o veterano Jack Palance, com uma sólida carreira em Hollywood, incluindo em seu currículo clássicos como 'Precipícios D'Alma' (Sudden Fear, 1952) e 'Os Brutos Também Amam' (Shane, 1953). Supostamente, o ator teria se recusado a gravar uma cena romântica com Marianne Sägebrecht, fazendo a sequência separadamente, por considera-la pouco atraente. 

Christine Kaufmann (foto acima), que também era de origem alemã, faz uma participação como a glamourosa tatuadora que vive no motel. A atriz, que foi casada com Tony Curtis, é conhecida por filmes como 'Cidade Seam Compaixão' (Town Without Pity, 1961) e 'Monsieur Cognac' (1964).

A música tema 'Calling You', de Jevetta Steele, chegou a ser indicada ao Oscar de melhor canção original. 


Embora seja ambientado em Nevada, nos EUA, o longa foi gravado na Califórnia, em Newberry Springs, tendo como cenário o então Sidewinder Cafe. Posteriormente, foi renomeado para 'Bagdad Cafe' para atrair turistas, possuindo um pequeno quadro de avisos na parede, que mostra fotos do elenco e da equipe do filme.

Em 1990, foi realizada uma série homônima estrelada por Whoopi Goldberg e Jean Stapleton, porém não atingiu o sucesso desejado.

O filme está disponível no Prime Vídeos, da Amazon.

Ficha técnica:

Direção: Percy Adlon;
Roteiro: Eleonore Adlon, Percy Adlon e Christopher Doherty;
Duração: 1 h e 35 min.
Elenco principal: Marianne Sagebrecht, CCH Pounder, Jack Palance e Christine Kaufmann;
Gênero: Comédia dramática;
País de origem: Alemanha Ocidental;
Data de lançamento: 12 de novembro de 1987;
Idioma: Inglês
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Por que Greta Garbo acabou no Irajá?

 


Se você é brasileiro, provavelmente já deve ter escudado a famosa frase 'Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá!'. Mas de onde vem esse termo?


Antes de mais nada - o básico - caso você tenha caído no blog através de pesquisa na internet e não saiba nada sobre cinema clássico. Greta Garbo (Estocolmo, 18 de setembro de 1905 - Nova Iorque, 15 de abril de 1990), foi uma atriz sueca que fez um enorme sucesso em Hollywood nas décadas de 1920 e 1930; Já Irajá é um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.


Mas o que ela foi fazer em Irajá?


Versão de 2005, com Hilton Have, Dalton Vigh e Bárbara Paz

A frase em questão é o título da peça teatral de autoria do dramaturgo Fernando Mello, cuja primeira montagem aconteceu em 1973, com Nestor Montemar, Mário Gomes e Arlete Sales no elenco original. Em plena ditadura militar, a obra levou para os palcos temas tabus para a época, como relações homoafetivas, prostituição e uso de drogas em uma comédia dramática. Em 1974, Raul Cortez assumiu o papel principal, sendo provavelmente o ator mais associado à peça. O espetáculo fez um enorme sucesso e ficou em cartaz durante anos, com mudanças no elenco ao longo do tempo. 

Raul Cortez com Nuno Leal Maia e Pepita Rodríguez, e ao lado, com Eduardo Moscovis, em diferentes ocasiões


A história acompanha o protagonista Pedro, um enfermeiro de 70 anos, morador de Irajá, que tem fascínio pela atriz Greta Garbo e almeja ser como ela. Ao conhecer Renato, um jovem recém-chegado ao Rio, decide acolhe-lo em sua casa e os dois iniciam um relacionamento. Cada vez mais envolvido com o amante, Pedro passa a roubar medicamentos do hospital em que trabalha para sustentar o vício de Renato. Paralelamente, frequentando a boemia carioca, o rapaz começa um caso com uma prostituta cleptomaníaca chamada Mary, formando um triângulo amoroso com direito a drogas, furtos e uma diva de Hollywood.

A peça teve diversas montagens no decorrer dos anos, incluindo uma versão recente com Mario Gomes (presente na primeira montagem como Renato) interpretando agora Pedro. Em 2019, foi lançado o filme 'Greta', estrelado por Marco Nanini (foto acima), baseado na obra original de Fernando Mello, porém com algumas mudanças na história.

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Narciso Negro (Black Narcissus, 1947)


A julgar pela foto acima, você poderia pensar que se trata de um filme de terror. No entanto, os únicos aterrorizados foram os membros da Legião da Descência dos EUA, que exigiram que algumas cenas fossem cortadas da versão final que seria exibida no país. O longa britânico, com freiras como protagonistas, é um drama que trata principalmente sobre repressão sexual, solidão e histeria, se é que se pode chamar assim.


Com um ritmo lento, que permeia todo o filme, somos apresentados à jovem Irmã Clodagh (Deborah Kerr), que recebe o encargo de chefiar um pequeno grupo de freiras em uma missão no Himalaia. Isoladas em uma enorme mansão, que anteriormente havia sido usada pelas amantes do soberano local, as religiosas precisam se adaptar ao novo estilo de vida e conquistar a confiança dos nativos, que possuem suas próprias supertições. Para auxiliá-las com o idioma e pequenas tarefas cotidianas, entra em cena o cínico Sr. Dean (David Farrar).


A presença de um homem jovem e atraente, aliada à solidão e ao clima inóspito que parece rodeá-las, traz a tona sentimentos e dúvidas em algumas das freiras, que começam a lembrar que também são mulheres. A irmã Ruth (Kathleen Byron), que já apresentava comportamentos considerados inadequados ainda no convento, passa a se rebelar e se comportar histericamente por causa de seu amor platônico por Dean, o que aumenta ainda mais a tensão e o medo da inexperiente Irmã Clodagh, que teme perder o controle de sua liderança perante os moradores e as demais freiras. 

Bom, vou ficando por aqui com o resumo para não dar spoiler, mas vamos falar um pouco sobre o elenco e algumas curiosidades sobre o longa.


Baseado na obra de Rumer Godden, o filme foi dirigido pela dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, responsáveis por diversos clássicos, como 'Sapatinhos Vermelhos' (The Red Shoes, 1948). Para a surpresa de muitos, inclusive alguns membros da própria equipe, o cenário mostrando o Himalaia foi todo criado em estúdio, utilizando imagens ampliadas e miniaturas. Já a fotografia do longa, cujo responsável foi Jack Cardiff, foi inspirada nas obras e nas paletas de cores utilizadas pelo pintor holandês Johannes Vermeer, célebre por trabalhos como 'A Moça do Brinco de Pérola', criado em 1665. 

As lembranças da vida pregressa da protagonista e cenas como a da irmã Ruth passando batom vermelho, foram consideradas ofensivas para os sensores estadunidenses e foram retiradas das exibições no país, embora não haja nada exatamente imoral nelas, apenas atitudes vistas como provocativas.



Deborah Kerr protagoniza a história, apesar de ainda estar em seus 20 e poucos anos, e ter sido considerada muito jovem para a personagem. Com seu desempenho, ela acabou chamando a atenção de Hollywood, onde se tornou uma das grandes estrelas, dispensando maiores apresentações da minha parte. Outra atriz muito famosa em início de carreira é Jean Simmons, bem novinha, interpretando uma nativa (e fazendo uma ligeira *blackface*, muito comum em produções da época). Ela chegou a fazer testes, vencendo mais de 1600 candidatas que disputavam o papel.

As duas atrizes ficaram amigas, atuando juntas novamente em outras produções como 'A Rainha Virgem' (Young Bess, 1953) e 'Do Outro Lado, o Pecado' (The Grass Is Greener, 1960).

*Blackface é quando atores brancos se pintam de preto para interpretar personagens negros. No caso, a atriz teve sua pele escurecida para interpretar uma indiana.



Ainda no elenco, Kathleen Byron é daquelas coadjuvantes que roubam a cena, como a freira à beira da loucura, irmã Ruth. Ao lado de David Farrar, repetiu a parceria com a dupla de diretores no longa 'De Volta ao Pequeno Apartamento' (The Small Back Room, 1949). Falecida em 2009, aos 88 anos, ela chegou a participar de filmes como 'Emma' (1996) e 'O Resgate do Soldado Ryan' (Saving Private Ryan, 1998), se mantendo ativa até 2001. Já o ator, protagonizou longas como 'Coração Indômito' (Gone to Earth, 1950), ao lado de Jennifer Jones.


Fechando o elenco principal, temos a veterana Flora Robson, que atuou em clássicos como 'Fogo Sobre a Inglaterra' (Fire Over England, 1937), e o ator indiano Sabu, conhecido por 'O Ladrão de Bagdá' (The Thief of Bagdad, 1940) e 'Mogli, o Menino Lobo' (Jungle Book 1942).

Você encontra o filme completo no Youtube, tanto legendado quanto dublado.

Ficha técnica:

Direção: Michael Powell e Emeric Pressburger;
Roteiro: Michael Powell e Emeric Pressburger, baseado na obra original de Rumer Godden;
Duração: 1 h e 41 min.
Elenco principal: Deborah Kerr, Kathleen Byron, David Farrar, Jean Simmons, Sabu e Flora Robson;
Fotografia em Technicolor: Jack Cardiff;
Gênero: Drama
País de origem: Reino Unido
Data de lançamento: 26 de maio de 1947
Idioma: Inglês
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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Cinema Pre-Code - Lançamento da Obras-Primas do Cinema

 


Mas, afinal, o que é 'Pre-Code'?


Em 1927, era inaugurada a era falada de Hollywood, com a estreia de 'O Cantor de Jazz' (The Jazz Singer). Com a chegada do som, aumentando ainda mais o fascínio e a atração que o cinema exercia no público, algumas autoridades católicas, como o editor Martin Quigley e o padre Daniel A. Lord, começaram a se preocupar com o decoro dos jovens norte-americanos. Segundo eles, a juventude era facilmente corrompida com os despudores mostrados nas telas e, sendo assim, decidiram estipular uma espécie de manual da moral e dos bons costumes, que foi entregue ao político Will H. Hays, que presidia a Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América. Embora oficialmente o Código de Produção de Filmes tenha sido implantado em 1929, seu início não foi muito promissor. Com baixa vigilância, os filmes continuavam sendo produzidos normalmente, explorando diversos temas polêmicos, como aborto, homossexualidade, uso de drogas, prostituição, infidelidade, e até mesmo uma certa glamourização dos gângsters. Vendo que suas normas de nada adiantaram, houve uma forte campanha para uma efetivação da moralidade nas telas de cinema e, a partir de 1934, o Código Hays, como ficou conhecido, começou a ser levado a sério, obrigando todas as produções a passar por uma forte censura para conseguirem a aprovação para serem lançadas.

Homossexualidade, nudez, sexo e gângsters como protagonistas

Em resumo, Pre-Code é todo o período compreendido entre 1929 e 1934 no cinema norte-americano. Com a maior rigidez da vigilância, houve a proibição de uma série de elementos que, na visão de seus censores, seriam prejudiciais à sociedade estadunidense e deveriam ser abolidos das telas de cinema. Foram proibidas cenas contendo nudez, insinuações sexuais, homossexualidade, uso de drogas, miscigenação (relacionamentos entre brancos e outras raças), higiene pessoal, doenças venéreas, parto, ridicularização do clero e simpatia por criminosos, dentre outros. Até mesmo beijos demorados e casais, ainda que casados, deitados na mesma cama eram mal vistos pelo código. 

Mas para nossa alegria, a produção da era Pre-Code foi bem profícua e nos deu alguns dos grandes clássicos, tais como 'Inimigo Público' (The Public Enemy, 1931), 'Scarface - A Vergonha de uma Nação' (Scarface, 1932), 'A Vênus Loira' (Blonde Venus, 1932) 'Serpentes de Luxo' (Baby Face, 1933) e 'Sócios no Amor' (Design for Living, 1933). Agora, a Obras-Primas do Cinema traz uma coleção com quatro dos maiores clássicos desta época, estrelado por alguns dos mais proeminetes nomes da história do cinema. Confira abaixo o que vem na coleção:

Disco 01:

O Cântico dos Cânticos (The Song of Songs, 1933)


Estrelado por Marlene Dietrich, conta a história da jovem Lily, que se muda para Berlim após a perda de seu pai. Morando com a tia, ela logo conhece e se apaixona por um escultor, que insiste para que ela seja sua modelo. Seus atributos físicos acabam chamando a atenção de um barão, que além de cobiçar a estátua faz de tudo para ter para si a própria Lily. Uma ousada estátua da atriz, foi duplicada e exibida em saguões dos cinemas para promover o filme, fato que causou protestos de mulheres e religiosos.

Santa Não Sou (I'm No Angel, 1933)


Mae West é creditada por muitos como a responsável por lançar Cary Grant ao estrelato, ao protagonizarem 'Uma Loira Para Três' (She Done Him Wrong, 1933). Os dois repetiram a parceria em Santa Não Sou (I'm No Angel) ainda no mesmo ano. O que o que ninguém pode negar, no entanto, é a ousadia e o humor lascivo da atriz, que escreveu e protagonizou o longa. Uma das personalidades mais polêmicas e transgressoras de sua época, Mae West era o terror da censura e dos puritanos, com textos cheios de piadas picantes e frases que se tornariam icônicas. Aqui, ela interpreta a artista de circo Tira, que enquanto desafia leões no picadeiro, se diverte flertando com milionários e dando pequenos golpes, enquanto não arruma um marido rico.

Disco 02:

Levada à Força (The Story of Temple Drake, 1933)


Miriam Hopkins era acostumada a polêmicas tanto nas telas quanto fora delas. Principal rival de Bette Davis, a atriz interpretou ladras, prostitutas e até teve relacionamentos com dois homens ao mesmo tempo, mas ao viver Temple Drake ela teve em mãos um dos grandes desafios de sua carreira. Baseado em uma das obras mais controversas do escritor William Faulkner, intitulada 'Santuário', o longa aborda temas como sequestro, estupro e assassinato, ao contar a saga da jovem que é capturada por um contrabandista de bebidas e mantida em cárcere, como sua escrava sexual.

Serpente de Luxo (Baby Face, 1933)


Protagonizado por Barbara Stanwyck e com a pequena participação de um jovem John Wayne, o filme é um dos grandes representantes dos clássicos desta era, com o sexo como principal tema. A jovem Lily Powers é explorada desde a adolescência e passa seus dias sem muitas perspectivas. Após receber o conselho de um amigo, ela percebe que precisa usar seu poder de atração contra os homens e decide explora-los ela mesma ao invés de continuar sendo usada. Assim, ela vai para a cidade grande e começa a trabalhar num banco, usando o corpo como sua principal qualificação rumo ao andar mais alto do prédio, onde se encontra o presidente da empresa.


A edição ainda contém alguns extras, além de 4 cards e luva:

Pre-Code vs. Código Hays (5 minutos)
Discutindo Levada à Força (15 minutos)
"Levada à Força" e Miriam Hopkins (20 minutos)
Making of de Levada à Força (18 minutos)

Você pode encontrar nas melhores lojas do ramo, incluindo a Amazon e a Colecione Clássicos



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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

E a Mulher Criou Hollywood (Et la Femme Créa Hollywood, 2016)


É comum associarmos a presença feminina no cinema apenas às atrizes, afinal a esmagadora maioria de diretores, produtores, roteiristas e todas as demais funções de prestígio que envolvem esta indústria é constituída por homens. Quando Kathryn Bigelow venceu o Oscar de Melhor Direção em 2010 tornou-se a primeira mulher a receber a estatueta na categoria, em uma premiação que existe desde 1927, então na 82° edição.

Kathryn Bigelow com seu Oscar


Curiosamente, ao contrário do que podemos pensar, as mulheres não começaram a se interessar por tarefas atrás das câmeras apenas nas últimas décadas. O próprio cinema ficcional, com roteiro e encenação, fora inventado por uma figura do sexo feminino, a francesa Alice Guy Blaché. Na era do cinema mudo, especialmente durante as primeiras duas décadas do século XX, as mulheres dominavam a sétima arte, desempenhando as mais diversas funções, desde as mais simples até as mais complexas. Então por que não aprendemos sobre elas e nem conhecemos seus nomes? Por que não houve uma queda tão brusca do número de mulheres nas produções cinematográficas? 


Simples! No começo, o cinema era experimental, considerado sem futuro, um mundo onde apenas mulheres e judeus se arriscavam, já que não tinham facilidade para conseguirem outros empregos. Com poucos recursos e em uma área pouco valorizada, o trabalho feminino era árduo mas extremamente prolífico. Aos poucos, percebeu-se o potencial do cinema como uma verdadeira fábrica de dinheiro que atraía cada vez mais o público. E ao tornar-se lucrativo, tornou-se também o alvo dos homens. Com a fundação dos grandes estúdios, Hollywood tornou-se uma indústria de fato, dominada principalmente por judeus, como Adolph Zukor (da Paramount), Louis B. Mayer (da MGM), Carl Laemmle (da Universal), Jack e Samuel Warner (da Warner Bros.), William Fox (da 20th Century-Fox) e Harry Cohn (da Columbia Pictures). Com cada vez menos oportunidades, a participação feminina foi se tornando cada vez mais escassa.


Dirigido e produzido por Julia Kuperberg e Clara Kuperberg, o documentário 'E a Mulher Criou Hollywood' ((Et la Femme Créa Hollywood, 2016), fazendo um jogo de palavras com o filme 'E Deus Criou a Mulher' (Et Dieu... créa la femme, 1956), traz à tona quase que uma denúncia à forma como mulheres como Alice Guy Blaché, Dorothy Arzner ou Lois Weber são não apenas esquecidas como completamente ignorada por teóricos da sétima arte, tirando finalmente das sombras algumas das figuras mais importantes do cinema. 


Algumas das mulheres citadas no documentário:


Alice Guy Blaché (Saint-Mandé, França, 1 de julho de 1873 - Wayne, EUA, 24 de março de 1968)


Se os irmãos Lumière são os pais da sétima arte, é a Alice Guy Blaché a quem devemos a magia do cinema, como o conhecemos hoje. Auguste e Louis Lumière inventaram o cinematógrafo, reproduzindo pequenos vídeos de cenas cotidianas da época e promovendo a venda do aparelho de maneira mais científica. Alice, presente em uma das exibições dos dois, trabalhava como secretária de Léon Gaumont, que deu seu aval para que a jovem fizesse suas próprias produções em seu tempo livre. Diferente de seus contemporâneos, ela acreditava que a invenção deveria ser usada também para contar histórias e, em 1896, filmou seu primeiro curta 'A Fada do Repolho' (La Fée aux choux), que viria a ser o primeiro filme ficcional da história, tornando-a automaticamente, a primeira cineasta e roteirista do cinema, antes mesmo de Georges Méliès. Durante 20 anos de carreira, chegou a dirigir mais de mil filmes. 

Lois Weber (Allegheny, EUA, 13 de junho de 1879 - Hollywood, EUA, 13 de novembro de 1939)


Roteirista, produtora, diretora e atriz, Lois Weber foi uma das mais importantes cineastas da era do cinema mudo, chegando a ser a mais bem paga, dentre homens e mulheres. Foi uma das pioneiras do uso do 'split screen', divisão da tela mostrando duas cenas ao mesmo tempo. Exemplos bem famosos de clássicos (de outros diretores) que usaram a técnica são os filmes 'Indiscreta' (Indiscreet, 1958) e 'Confidências à Meia-Noite' (Pillow Talk, 1959). Weber também destacou-se ao abordar temas ousados, como aborto e prostituição, além da primeira cena de nu frontal feminino do cinema em 'Hypocrites' (1915). *Nos links há fotos exemplificando a técnica


Anita Loos (Sisson, EUA, 26 de abril de 1889 – Nova Iorque, EUA, 18 de agosto de 1981)


Anita Loos foi oficialmente a primeira roteirista mulher em Hollywood, ao ser contratada por DW Griffith em 1912. Sua parceria com o astro Douglas Fairbanks, para quem escreveu diversos filmes, aumentou consideravelmente sua popularidade na época. Mas foi com as histórias em quadrinho com as aventuras de Lorelei Lee e Dorothy Shaw em ' Os Homens Preferem as Loiras' (Gentlemen Prefer Blondes), lançado em 1925, que atingiu o auge de sua carreira e sua independência financeira. O enredo foi adaptado para as telas em 1928, com Ruth Taylor e Alice White, e em 1953, com Marilyn Monroe e Jane Russell, em sua versão mais famosa. Alguns de seus trabalhos mais importantes no cinema incluem 'Intolerância' (Intolerance, 1916), 'A Mulher Parisiense dos Cabelos de Fogo (Red-Headed Woman, 1932) e 'As Mulheres' (The Women, 1939). Loos também adaptou a icônica obra de Colette, 'Gigi' (1945), para os palcos em 1951, tendo a iniciante Audrey Hepburn como estrela na Broadway.

Mabel Normand (New Brighton, EUA, 9 de novembro de 1892 - Monróvia, EUA - 23 de fevereiro de 1930)


Uma das grandes estrelas de sua época, destacou-se como comediante, atuando ao lado de Roscoe "Fatty" Arbuckle e Charlie Chaplin em diversos filmes. Embora no longa biográfico de Chaplin, de 1992, onde é interpretada por Marisa Tomei, seja retratada como uma atriz egocêntrica e sem talento, é um consenso sua importância no início da carreira do ator e cineasta como uma espécie de mentora, além de interceder a seu favor junto ao diretor e produtor Mack Sennett. Além de atuar, era diretora, roteirista e produtora, chegando a dirigir muitos de seus próprios filmes e ter seu próprio estúdio, embora este sem muito sucesso. 

Dorothy Arzner (São Francisco, EUA, 3 de janeiro de 1897 - La Quinta, EUA - 1 de outubro de 1979)


Com a carreira iniciada na era do cinema mudo, Dorothy Arzner foi a única diretora do sexo feminino durante a década de 30. Contratada pela Paramount, trabalhou como estenógrafa e roteirista, logo sendo promovida a editora, dominando a função em apenas seis meses e arrancando elogios logo em sua estreia, no clássico com Rodolfo Valentino 'Sangue e Areia' (Blood and Sand, 1922). Após uma série de filmes para o estúdio, ela ameaçou ir para a rival Columbia Pictures caso não pudesse passar a também dirigir seus próximos trabalhos. A Paramount acabou concordando e em 1927 ela inaugurou a função em grande estilo, no sucesso de público 'A Mulher e a Moda' (Fashions for Women). Com a chegada do som, dirigiu a estrela Clara Bow em seu primeiro longa falado 'Garotas na Farra' (The Wild Party, 1929), inventando, com uma pequena gambiarra, uma forma da atriz circular livremente pelo estúdio, pendurando um microfone em uma linha de pesca. Apesar de ser creditada pela invenção, posteriormente aperfeiçoada, como não patenteou sua criação, o aparato acabou sendo registrado por um dos engenheiros da Fox. Primeira mulher a dirigir um filme falado e a integrar o sindicato 'Directors Guild of America', Arzner foi a responsável por lançar a carreira de grandes atrizes como Katharine Hepburn, Sylvia Sidney, Rosalind Russell e Lucille Ball. Alguns de seus principais trabalhos são 'Assim Amam as Mulheres' (Christopher Strong, 1933), 'Felicidade de Mentira' (The Bride Wore Red, 1937) e 'A Vida é uma Dança' (Dance, Girl, Dance, 1940.

Frances Marion (São Francisco, EUA, 18 de novembro de 1888 - 12 de maio de 1973, Los Angeles, EUA)


Frances Marion começou a carreira como assistente de Lois Weber, logo se estabelecendo como uma das roteiristas mais aclamadas de seu tempo, sendo a primeira vencedora de duas estatuetas na categoria, pelos filmes 'Lírio do Lodo' (Min and Bill, 1930) e 'O Campeão' (The Champ, 1931). Amiga pessoal da maior estrela do cinema mudo, Mary Pickford, chegou a ser contratada como escritora exclusiva de seus filmes. As duas trabalharam juntas em alguns dos maiores sucessos da atriz como 'A Princesinha' (The Little Princess, 1917), 'The Poor Little Rich Girl' (1917) e 'Pollyanna' (1920), dentre outros. Durante a Primeira Guerra Mundial, chegou a trabalhar como jornalista, documentando os esforços de guerra femininos na linha de frente das batalhas e sendo a primeira mulher a cruzar o Reno após o armistício. Com mais de 180 créditos como roteirista, alguns de seus principais trabalhos incluem 'A Letra Escarlate (The Scarlet Letter, 1926), 'Anna Christie' (1930) e 'Jantar às Oito' (Dinner at Eight, 1933).

Mary Pickford (Toronto, Canadá, 8 de abril de 1892 - Santa Mônica, EUA, 29 de maio de 1979)


Para além de sua imagem frágil e até infantilizada, Mary Pickford foi uma das mulheres mais poderosas das décadas de 1910 e 1920, além de ser a maior estrela da era do cinema mudo. Cofundadora do estúdio United Artists Corporation, juntamente com D. W. Griffith , Charlie Chaplin e Douglas Fairbanks, foi também um dos 36 fundadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Vencedora do Oscar por sua atuação em 'Coquete' (Coquette, 1929), a atriz, que atuou em mais de 50 filmes ao longo de sua carreira, fez questão de tornar-se sua própria produtora, supervisionando todos os aspectos que envolviam seus trabalhos. Além de feminista, Pickford fazia questão de usar sua fama para apoiar uma série de causas, fazendo discursos para arrecadar fundos para os esforços durante a Primeira Guerra, com a venda dos 'Liberty Bonds', títulos vendidos nos EUA, chegando a falar para 50 mil pessoas. Também fundou o Hollywood Studio Club, um dormitório para mulheres que trabalhavam no cinema e o Motion Picture & Television Fund, um fundo de caridade para ajudar atores que estivessem passando por necessidades, com auxílio financeiro e moradias provisórias.

Ida Lupino (Londres, Inglaterra, 4 de fevereiro de 1918 - Los Angeles, EUA, 3 de agosto de 1995)


Ida Lupino começou sua carreira como atriz, ainda na Inglaterra, indo para Hollywood no final da década de 30. Em 1940, destacou-se como femme fatale no noir 'Dentro da Noite' (They Drive by Night), que lhe rendeu um contrato com a Warner, onde frequentemente ficava com papéis que haviam sido recusados por Bette Davis. Durante seu tempo no estúdio, a atriz estava sempre em atrito com Jack Warner. Exigindo trabalhos de qualidade e recusando muitos filmes que lhe eram oferecidos, ela foi punida diversas vezes com suspenções. Durante o período de ócio, passou a se interessar pelas funções por detrás das câmeras. Junto com o marido Collier Young, fundou a produtora independente The Filmakers Inc., em 1948. Seu primeiro trabalho na direção foi em 'Mãe Solteira' (Not Wanted, 1949), substituindo Elmer Clifton, que havia sofrido um ataque cardíaco. Em respeito ao colega, optou por não ser creditada. Além de continuar trabalhando como atriz para conseguir dinheiro para seus filmes, ela tornou-se diretora, produtora e roteirista, abordando temas polêmicos como estupro e gravidez fora do casamento. Algumas de suas produções mais aclamadas como cineasta são 'O Mundo Era o Culpado' (Outrage, 1950), 'O Bígamo' (The Bigamist, 1953) e 'O Mundo Odeia-me' (The Hitch-Hiker, 1953), tornando-se a primeira mulher a dirigir um noir. Durante a década de 60, dedicou-se aos programas de televisão, dirigindo episódios de séries como 'Alfred Hitchcock Presents', 'The Twilight Zone' , 'Os Intocáveis' (The Untouchables), 'O Fugitivo' (The Fugitive) e 'A Feiticeira' (Bewitched). Ao todo, dirigiu 8 longas e mais de 100 episódios de televisão.

O documentário está disponível na íntegra e legendado no YouTube: Clique aqui

Para quem se interessar, deixo aqui também duas coleções em dvd:

As Pioneiras do Cinema: Clique aqui;
A Arte de Ida Lupino: Clique aqui
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domingo, 15 de agosto de 2021

O Beijo no Asfalto (1980), um clássico nacional baseado na peça de Nelson Rodrigues

 

Obsceno. Vulgar. Sujo. Pornográfico. Estes eram alguns adjetivos que costumavam permear as opiniões acerca de Nelson Rodrigues durante toda a sua carreira. Conhecido por expor as mais degradantes facetas do ser humano, trazendo à luz toda a podridão que a hipócrita sociedade brasileira tanto se envergonhava e se envergonha até hoje, o dramaturgo que levou o teatro do país a outro patamar conseguia a proeza de ser odiado de norte a sul. Desprezado pela esquerda por sua posição política, sendo assumidamente reacionário, muito menos tinha o apoio da direita conservadora, que se escandalizava com o teor de suas obras. Apesar de críticas avassaladoras, no entanto, o sucesso não lhe escapou, conseguindo consagrar-se como jornalista e escritor, nas mais variadas narrativas, de romances à crônicas sobre futebol. 

Nelson Rodrigues

Já consagrado, tendo como principais trabalhos a peça 'Vestido de Noiva' (1943) e as crônicas diárias intituladas 'A Vida como Ela é..' (1950 a 1961), escritas para o jornal 'Última Hora', Nelson Rodrigues publicou em 1960 a peça 'O Beijo no Asfalto', que teve sua primeira montagem um ano depois no Teatro dos Sete, com elenco formado por Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Oswaldo Loureiro. O autor, que por anos havia ganhado a vida como jornalista, costumava se inspirar em manchetes de noticiários para dar o ar cotidiano de suas obras. Em uma destas, descrevia-se os últimos momentos do repórter do jornal 'O Globo', Pereira Rego, que após ser atropelado por um ônibus no Largo do Machado, centro do RJ, pedira um beijo de despedida à uma jovem desconhecida que havia se debruçado para socorre-lo. Nas mãos de Nelson Rodrigues, o beijo de misericórdia passa a ser o centro de várias vertentes da hipocrisia e da imoralidade da sociedade brasileira, fazendo parte da série de peças chamada 'Tragédias Cariocas'.

Suely Franco, Fernanda Montenegro e Oswaldo Loureiro na adaptação teatral em 1961

A história teve três adaptações para as telas. A primeira, com o título apenas de 'O Beijo', estreou em 1964, com direção de Flávio Tambellini e com Reginaldo Faria, Norma Blum, Xandó Batista e Jorge Dória no elenco. Mais recentemente, em 2018, sob a direção de Murilo Benício, com Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos, Débora Falabella e Stênio Garcia, foi realizada a terceira e última adaptação até então. Mas falemos da mais famosa das versões, a de 1980, com o icônico beijo entre Ney Latorraca e Tarcísio Meira, que dividem os holofotes com Christiane Torloni, Daniel Filho, Oswaldo Loureiro e Lídia Brondi no clássico do cinema nacional, de Bruno Barreto.

Sobre o filme


Embora Tarcísio Meira seja o primeiro nome nos créditos do longa, é Ney Latorraca quem mais se destaca na produção, interpretando o protagonista Arandir. Logo nas imagens iniciais, vemos a cena de um atropelamento, com a familiar multidão de curiosos em volta da vítima. Este fato simples e cotidiano, que apesar de lamentável acontece com enorme frequência, ganha o interesse de um repórter sensacionalista e de um delegado corrupto, ansioso por desviar as atenções de uma notícia negativa envolvendo seu nome. Em seus últimos suspiros, um jovem ganha um beijo de despedida de uma pessoa que se debruça para acudi-lo. Mas a pessoa em questão não é uma mulher, e sim alguém do sexo masculino. E a sociedade pode perdoar atos mais simples como assassinatos, estupros e corrupção, mas um beijo homossexual em público? Não existe maior aberração e falta de decoro! 
*Obviamente o texto acima contém ironia

Na capa do jornal, Arandir é apontado como amante do homem atropelado e até mesmo acusado de tê-lo assassinado, o empurrando na frente do ônibus. Sem nenhuma prova, apenas com sua sentença estampada no tabloide, a vida e a dignidade do simples bancário são totalmente ignoradas, não só pelos 'vilões', que criaram o rumor, como também pelas pessoas comuns, nós, a sociedade, aqui mostrada como seus vizinhos, seus colegas de trabalho e, até mesmo, sua família. Humilhado no trabalho, perseguido nas ruas e sendo xingado em trotes e pichações, a rotina simples na casa em que vive com a esposa e a cunhada, platonicamente apaixonada por ele, torna-se insustentável, exigindo uma fuga, tal qual um criminoso. 

Embora escrita em 1960, tanto em 1980, exatos 20 anos depois, quanto em 2021, mais de 60 anos depois, o tema continua mais atual do que nunca. Escancarando toda a hipocrisia do falso puritanismo e a facilidade em conseguir algo por meios escusos, temos uma crítica clara à corrupção policial, que aplica a lei apenas aonde lhe convém, ao sensacionalismo da imprensa, que manipula e cria notícias para vender jornais e contribui para cortinas de fumaça para os assuntos efetivamente relevantes, além da óbvia homofobia e da sempre presente sexualidade reprimida, um dos principais assuntos da obra rodriguiana. A jornalista, vivida por Xuxa Lopes em rápida participação, aparece como uma voz sensata em meio ao caos mas logo é sobreposta por opiniões cada vez mais absurdas. O desfecho, que acaba sendo previsível por um lado e surpreendente por outro, encerra de uma forma cíclica a trama repleta de sujeiras. 

Para quem se interessa, o filme está disponível na íntegra no Youtube: Assista aqui

O livro está disponível para a compra e de maneira gratuita para quem possui Kindle Unlimited: Clique aqui para ir para a Amazon Brasil
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