Os Viúvos Também Sonham (A Hole in The Head, 1959)


Tony Manetta pode ser classificado como um adolescente de 41 anos. Viúvo e com um filho de 12 anos, ele leva uma rotina de bon vivant, cercado de belas mulheres e gastando dinheiro com ternos e noitadas. Eterno idealista, ele saiu ainda jovem de Nova York mudando-se para Miami com outros dois amigos, onde conseguiu adquirir seu próprio hotel à beira mar. O grande sonho de Tony é tornar-se um milionário, dono de uma cadeia de hotéis, mas sua situação financeira é exatamente o oposto disso, já que seu atual negócio não vai nada bem, tendo chegado ao ponto de receber uma ordem de despejo por falta de pagamento.


Sem muitas opções, Tony se vê obrigado a recorrer ao seu irmão mais velho, Mario, um homem 'quadrado', que trabalhou a vida inteira em sua loja, sem nunca ter parado para realmente viver a vida. Mario e sua esposa Sophie têm um carinho enorme por seu sobrinho Ally, desaprovando a forma desregrada e sem raízes com a qual o menino é criado. Os dois planejam convencer Tony a deixa-los levar o esperto rapazinho para ser criado por eles em uma casa e com uma boa estrutura financeira e familiar. Ally, no entanto, tem verdadeiro pânico de ser levado para longe de seu pai, a quem ama profundamente. 


Para contribuir ainda mais com a total censura de Mario ao seu estilo de vida, Tony tem um relacionamento sem muito compromisso com Shirl, uma mulher de espírito livre, que está sempre com as pernas de fora, adora surfar e tocar bongô, mas que não tem muita paciência com crianças. Para Mario, que acredita que o dinheiro precisa vir do trabalho duro, emprestar a quantia necessária ao irmão, apenas faria com que ele continuasse cada vez mais irresponsável. Por isso, ele impõe como condição para quitar a dívida, que Tony se case com Eloise Rogers, uma bela viúva solitária, a quem o marido deixou uma boa pensão. Sendo o tipo de homem que acha que pode sair de qualquer enrascada usando sua malandragem, Tony aceita a imposição, apenas para ganhar tempo.


Ao contrário de sua descrença inicial, a Sra. Rogers se mostra uma mulher encantadora e atraente, embora não seja exatamente seu tipo. Além de conquistar imediatamente Ally com sua amabilidade, ela acaba envolvendo o próprio Tony com sua maneira franca e direta. Incapaz de usa-la para seus objetivos e após viver de sonhos por 40 anos, Tony Manetta finalmente precisará encarar a realidade após mais uma atitude inconsequente em nome da ganância.

A produção e o elenco do filme

Penúltimo filme dirigido por Frank Capra, Os Viúvos Também Sonham é um de seus trabalhos menos conhecidos e também um dos mais criticados. Com um elenco de peso, que inclui Frank Sinatra, Edward G. Robinson, Eleanor Parker, Carolyn Jones e Thelma Ritter, é difícil explicar alguns pontos considerados falhos sem entrar um pouco no contexto social da época.

Os 'Franks' Sinatra e Capra nos bastidores do filme

Célebre por seus personagens sonhadores e que buscam um mundo melhor, Frank Capra fez uma série de filmes edificantes e com finais felizes. Nas décadas anteriores, o diretor tinha pleno poder em seus trabalhos, cuidando do roteiro e da concepção de acordo com suas próprias ideologias artísticas, produzindo clássicos como Aconteceu Naquela Noite (1934), O Galante Mr Deeds (1936), Do Mundo Nada Se Leva (1938) e A Mulher Faz o Homem (1939). Após uma pausa em sua carreira durante a Guerra, Capra chegou a fazer sua obra-prima, A Felicidade Não Se Compra (1946), no entanto seu status em Hollywood começara a decair, fazendo com que ele se encontrasse cada vez mais desmotivado em sua profissão.



Não é novidade que desde que o mundo é mundo, os tempos mudam e quem não se atualiza fica pra trás. Em 1959, a sociedade americana encontrava-se em transição. Os anos 30, 40 e 50, com seu código Hays e seu comportamento obsoleto começavam a sair de moda para a chegada iminente da década de 60 e sua luta por liberdade. A América era próspera e falar de sonhos já não tinham mais o mesmo apelo com o público, que ansiava pelo frescor das novidades. O sistema dos estúdios também já não era mais o mesmo do passado. Sem o controle absoluto de antes, e sem sequer assinar o roteiro, este adaptado da peça de teatro de mesmo nome, Capra teve o desafio de dirigir uma história com a qual provavelmente não se identificava.


Temos aqui um herói idealista, mas pelo qual não sabemos ao certo se queremos torcer. Ao contrário de seus protagonistas anteriores, que tinham um ótimo coração e ajudavam a todos, Tony é um sonhador que visa apenas o dinheiro. Embora seja um bom pai, ele muitas vezes se mostra mais imaturo do que o próprio filho; Como supostos vilões da história temos o maravilhoso Edward G. Robinson e Carolyn Jones, hoje mais conhecida por seu papel na série A Família Addams. No papel do 'sovina que atrapalha a vida do herói apenas por estar de mal com a vida', que já coube a Lionel Barrymore e Edward Arnold, Robinson acaba sendo muito mais cativante do que o próprio Sinatra. Como o 'irmão chato', ele mostra também uma ótima veia cômica e termina o filme apenas como um homem que simplesmente quer o melhor para o irmão caçula. Já a personagem de Carolyn, embora chata em alguns momentos, é uma jovem moderna, que bebe, mostra as pernas e não gosta de amarras. Representando a futura mulher dos anos 60, sexualmente livre, ela mostra que pode até não saber muito bem o que quer, mas sabe exatamente o que não quer. Em contraste, temos a bela e recatada Sra Rogers, interpretada por Eleanor Parker, que tem uma história trágica e sofre com a solidão que a falta de uma família lhe causa. A insistente obrigação de ter uma esposa voltada para o lar e devotada ao marido e ao pequeno Ally, acabam dando um certo ar ultrapassado no roteiro, assim como o fato da Sra Rogers ser considerada 'correta' enquanto Shirl representa a 'errada', quando na verdade ambas apenas eram mulheres diferentes com personalidades distintas.


Embora o filme tenha suas falhas, acredito que vale a pena ser visto, afinal Frank Capra pode não estar em sua melhor forma no longa, mas ainda assim continua sendo Frank Capra. A real diferença é justamente essa perda da essência de seus filmes de maior sucesso, sendo esta uma história com um tom um pouco mais amargo e personagens menos carismáticos, o que justamente é explicado pelo fato de não ter sido Capra o responsável pelo roteiro. O verdadeiro destaque do longa é sem dúvida o ruivíssimo Eddie Hodges, intérprete de Ally. A presença do garoto é uma das melhores partes do filme, que como já foi dito acima, conta com um excelente elenco!  A música 'High Hopes', que canta em dueto com Frank Sinatra, venceu o Oscar de Melhor Canção Original.


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