A volta por cima de Julie Andrews em Victor ou Victoria? (Victor Victoria, 1982)


Certa vez Julie Andrews declarou 'As vezes sou tão doce que nem mesmo eu posso suportar'. A atriz, que iniciou sua carreira nos palcos, ganhou destaque ao interpretar a vendedora de flores Eliza Doolittle na peça My Fair Lady. Com trabalhos no teatro e na televisão, sendo inclusive indicada ao Emmy por sua atuação como Cinderella em programa transmitido pela CBS em 1957, Julie era moderadamente famosa em 1964, mas não o suficiente para que Jack Warner a escalasse como protagonista da adaptação cinematográfica do musical que a tinha revelado. Sendo uma superprodução, o chefão acreditava que necessitava de uma grande estrela, do calibre de Audrey Hepburn, para atrair o público e angariar uma fortuna em bilheteria. Apesar da decepção, sua estreia nas telas veio no mesmo ano, na versão da Disney para o livro de P.L. Travers, Mary Poppins, papel que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz. Tornando-se uma queridinha do público, ela conseguiu outro sucesso estrondoso como Maria von Trapp em A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965).

Audrey Hepburn e Julie Andrews no Oscar de 1965

Nos dois anos seguintes, mais êxitos a aguardavam, com os longas Havaí (Hawaii, 1966), Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1966) e Positivamente Millie (Thoroughly Modern Millie, 1967), todos enormes sucessos de bilheteria. Já que tudo em que ela tocava virava ouro, a Twentieth Century-Fox decidiu investir pesado, produzindo uma biografia musical de Gertrude Lawrence, icônica atriz de teatro conhecida por seu gênio forte. Protagonizado por Andrews, com cenários e figurinos caprichados e grandiosos números musicais, o longa intitulado A Estela (Star!, 1968) tinha tudo para ser uma sensação, mas acabou sendo um retumbante fracasso, o primeiro de Julie. Retratada como a artista temperamental e polêmica que era, a figura de Gertrude Lawrence não combinava com a personalidade pública de Julie Andrews, doce e adorável. Com isso, ela tinha pela frente um longo desafio como atriz: O de tentar mudar sua imagem de moça correta.

A atriz em A Estrela

Julie encontrou no diretor Blake Edwards um parceiro na vida e na arte. Casaram-se em 1969 e permaneceram juntos até a morte dele em 2010. A prolífera parceria profissional do casal começou com o filme Lili, Minha Adorável Espiã (Darling Lili, 1970), que também acabou sendo um fiasco de público. Tendo se dedicado mais à televisão durante a década de 70, incluindo seu próprio programa, a atriz apareceu em apenas mais dois filmes neste período,A Semente do Tamarindo (The Tamarind Seed, 1974) e Mulher Nota 10 (10, 1979), ambos dirigidos por Edwards. Excetuando-se sua aparição em A Garotinha Que Caiu do Céu (Little Miss Marker, 1980), seus próximos dois trabalhos seriam sua libertação definitiva do rótulo que a perseguiu durante sua carreira.

Blake Edwards e Julie Andrews

Em S.O.B (1981), Blake Edwards decidiu fazer uma sátira da indústria cinematográfica, utilizando suas próprias experiências e fazendo do personagem Felix Farmer (interpretado por Richard Mulligan) uma ironia de si mesmo, assim como Sally Miles seria uma espécie de caricatura de sua esposa e interpretada por ela própria. Em uma das partes mais famosas do longa, Julie aparece mostrando os seios, em sua primeira cena de nudez. O polêmico filme recebeu críticas bem divididas, tendo indicações para prêmios sérios e conceituados, mas por outro lado sendo indicado como pior filme e pior direção no Framboesa de Ouro. No ano seguinte, em Victor ou Victoria?, o casal novamente decide explorar temas polêmicos, dessa vez em um musical, tratando de assuntos como homossexualidade e transexualidade. O longa foi um tremendo sucesso de público e crítica, rendendo a Julie o Globo de Ouro de Melhor Atriz, além de sua terceira indicação ao Oscar, consolidando de vez sua brilhante carreira.

A cena polêmica de S.O.B

Victor ou Victória?


Na Paris de 1934, vive Victoria Grant, uma cantora desempregada que, por mais talento que possua, não consegue ninguém para lhe dar uma chance. Após ser recusada em mais um trabalho e passando fome há quatro dias, ela volta para o hotel onde vive, mesmo devendo vários meses de sua estadia no local. Ao se deparar com uma barata em seu quarto, ela tem uma brilhante ideia que pode lhe proporcionar uma deliciosa e necessária refeição em um restaurante. Ao por seu plano em prática, ela conhece o cantor Carroll Todd, que havia assistido um de seus testes pela manhã e se encantado por sua voz. O próprio Todd acabara de perder seu emprego, o que faz com que os dois tenham grande simpatia um pelo outro e logo comecem uma grande amizade.


Após pegarem chuva, os dois chegam encharcados ao apartamento do cantor e trocam confidências enquanto esperam as roupas secarem. Todd lhe revela que é homossexual enquanto ela lhe conta fatos sobre seu primeiro casamento. Por se vestir com peças baratas, Victoria acaba tendo problemas com suas roupas, que encolheram após serem molhadas e precisa usar as roupas do novo amigo para voltar para casa. É então que Todd tem a grande ideia de transformar Victoria na grande sensação de Paris, porém de uma maneira pouco convencional. Fingindo ser um conde que se transveste de mulher, ela atrairia uma enorme atenção do público e se tornaria uma estrela dos palcos.


Logo em sua primeira apresentação em uma casa de show, ela encanta a platéia, concretizando as previsões de seu amigo e agora empresário. Um dos mais impressionados com a performance é King Marchand, um gangster machista que está junto com sua amante, Norma Cassady. Inconformado por aquela figura atraente ser um homem e não uma mulher, ele logo se sente impelido a investigar a situação, ao mesmo tempo em que se constrange com sua atração por outro homem. Quando Victoria, agora Victor, começa a corresponder os sentimentos de Marchand, as coisas ameaçam se complicar para os dois, já que se a farsa da artista for descoberta, ela perderá o que conquistou, mas continuar fingindo-se de homem pode arruinar o romance dos dois, pois um caso homossexual seria inadmissível no mundo do crime em que vive seu amado. 


Considerado um musical 'obrigatório', Victor ou Victoria? possui a vantagem de ter músicas apenas nas cenas onde os personagens estão no palco, o que pode agradar até mesmo aos que não são tão fãs do gênero, e costumam criticar as cantorias em cenas aleatórias e improváveis que nunca ocorreriam na vida real. Além disso, temos um elenco de primeira categoria, não só com a própria Julie, mas contando com nomes como James Garner, Robert Preston e Lesley Ann Warren, excelentes em seus papéis. O filme recebeu o Oscar de melhor trilha sonora adaptada e recebeu outras seis indicações, nas categorias de melhor roteiro adaptado (Blake Edwards), melhor atriz (Julie Andrews), melhor ator coadjuvante (Robert Preston), melhor atriz coadjuvante (Lesley Ann Warren), melhor direção de arte e melhor figurino. O longa foi baseado no filme alemão de 1933, Viktor und Viktoria.


Inicialmente o papel de Robert Preston seria de Peter Sellers, ator que fez várias parcerias com Blake Edwards, mas que faleceu em 1980. Embora tenha estreado em 1982, o projeto havia sido iniciado em 1978; Além de ver o filme original, Julie Andrews teve lições de box para as cenas em que sua personagem da socos. Ela revelou também que o diálogo entre Victoria e Marchand, que fala sobre confiarem e nunca mentirem um para o outro, foi inspirado num pacto real feito por ela e seu marido no início do relacionamento dos dois.


Embora aborde temas considerados polêmicos, o roteiro o faz com absoluta leveza e bom humor, não só demonstrando a naturalidade que devemos ter ao lidar com homossexualidade e transexualidade, como também dando um tapa com luva de pelica nos preconceitos externados pelos personagens. Embora na minha opinião o final deixe um pouco a desejar, não só como um musical, mas como um grande clássico do cinema Victor ou Victoria é uma obra indispensável. Ainda sobre o enredo, na década de 80, alguns longas abordaram temas semelhantes, como Parceiros da Noite (Cruising, 1980), Fazendo Amor (Making Love, 1982), Tootsie (1982), Partners (1982) e As Parceiras (Personal Best, 1982).

O dvd do filme está sendo lançado pela Classicline e pode ser adquirido nas melhores lojas do ramo, além do site da própria distribuidora, que agora possui uma loja virtual.

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