Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be, 1942)


A presença da rainha das comédias screwball Carole Lombard, aqui em seu último trabalho, pode dar a impressão equivocada de tratar-se de mais um longa deste gênero. Sob a sempre competente direção do alemão Ernst Lubitsch, o roteiro já ganha um olhar mais sofisticado e inteligente, que lhe era peculiar, com um humor sutil e carregado de pitadas de sexualidade. Mas o grande mérito do filme é, sem dúvida, a originalidade e enorme ousadia de Lubitsch, ao conceber um filme repleto de sarcasmo, ironizando não só as atores e suas idiossincrasias, como também o nazismo e seu líder maior, Hitler, em plena Segunda Guerra Mundial.


Após trabalhar no roteiro por uma década, Quentin Tarantino realizou em 2009 um de seus maiores sucessos, Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds), onde retrata uma Paris acuada, ocupada pelos nazistas. Em forma de sátira, ele mostra Hitler e seus subordinados com toda sua arrogância e crueldade, porém em diversas situações ridículas, e através da ficção recria sua derrocada, utilizando um grupo pouco tradicional que trama secretamente para vencer os nazistas, dentre eles mercenários que se autodenominam Bastardos Inglórios, uma atriz alemã que trabalha como espiã do governo inglês e a única sobrevivente de um massacre.

Hitler em Bastardos Inglórios 

Como uma fã de Tarantino, não tenho a menor intenção de diminuir seus méritos com relação ao filme, que por sinal é meu favorito de sua filmografia. No entanto, apesar do enredo dos longas ser completamente diferente, relacionei os dois imediatamente, por ambos tratarem da Guerra, e do Nazismo em si, de maneira extremamente sarcástica, e utilizando a ficção para que o público se sinta 'de alma lavada' perante uma das épocas mais obscuras da nossa história. Mas o principal fato que me levou a citar o filme de 2009, foi a intenção de ressaltar a grandeza e ousadia de Ernst Lubitsch, que como já foi citado no começo do texto, era alemão, e se atreveu a literalmente debochar da Guerra e dos nazistas em 1941! Sabe-se que a Segunda Guerra durou de 1939 até 1945, ou seja, diferente de uma produção atual, Ser ou Não Ser foi filmado enquanto os confrontos ainda estavam a pleno vapor, Hitler ainda estava no poder e numa época em que não havia qualquer definição de qual dos lados sairia vencedor.


Não por acaso, o filme foi rejeitado tanto pelo público quanto pela crítica e considerado de um forte mau gosto, afinal de contas, as pessoas estavam bastante fragilizadas na ocasião e era difícil encontrar humor para digerir uma comédia sobre o nazismo. Lançado em março de 1942, o longa teve sua estréia cerca de três meses após o ataque a Pearl Harbor, ainda recente na memória dos americanos, e que foi decisivo para a entrada dos EUA na Guerra. Além disso, havia o trágico acidente da estrela Carole Lombard, ocorrido em janeiro deste mesmo ano, o que só aumentava a tristeza em torno da produção. Até mesmo o pai do ator Jack Benny, protagonista do longa, se sentiu enojado pela temática abordada, chegando a sair do cinema, afirmando que jamais assistiria o filho usando um uniforme nazista novamente. Quando Jack explicou para ele a real intenção do roteiro, ele rapidamente se dispôs a dar uma nova chance ao filme, mudando completamente de ideia e considerando-o genial, voltando a ver outras 46 vezes! Com o passar do tempo, o mesmo aconteceu com os expectadores, fazendo com que atualmente a obra seja reconhecida como uma das maiores comédias de todos os tempos, além de um dos melhores trabalhos das carreiras de Lubitsch, Benny e Lombard.

O enredo



Joseph Tura é um ator polonês que tem o ego proporcional à sua canastrice. Ele é casado com a bela e talentosa Maria Tura, com quem contracena em suas peças. O grupo de teatro do qual fazem parte, ensaia uma peça sobre o nazismo, onde Hitler e seus discípulos são ironizados (exatamente a história do próprio filme). Enquanto a montagem não estreia, eles atuam na célebre obra de Shakespeare, Hamlet. Cansada do narcisismo do marido, apesar de ama-lo, Maria aceita receber em seu camarim o Tenente Stanislav Sobinskium ardoso fã apaixonado. Embora não cheguem a ter um romance propriamente dito, a atriz gosta da emoção do flerte do rapaz e passa a encontra-se sempre com ele, que está sempre na platéia e se levanta todas as vezes durante o monólogo principal 'Ser ou Não Ser', com a certeza de que Joseph estaria ocupado o suficiente para não atrapalhar sua visita ao camarim da amada.


Ao descobrir um espião dentre os combatentes poloneses, o jovem tenente passa a ser alvo dos alemães e acaba pedindo ajuda para sua querida Maria. Com isso, a atriz, seu marido e todo o grupo do teatro se vêem envolvidos em um perigoso esquema, sendo obrigados a interpretarem seus melhores papéis, não nos palcos e sem na realidade, para poderem salvar suas vidas e ajudar a resistência polonesa, usando disfarces e se infiltrando entre os próprios nazistas.

O Toque Lubitsch

Jack Benny e Ernst Lubitsch

Ernst Lubitsch já era um respeitado diretor na Alemanha quando foi convidado por Mary Pickford para ir para Hollywood, onde dirigiu a atriz no filme Rosita. Após algumas comédias no cinema mudo, como O Leque de Lady Windermere ( Lady Windermere's Fan, 1925) e So This is Paris (1926), foi para a Paramount, onde dirigiu alguns musicais, como Alvorada do Amor (The Love Parade, 1929). Mas foi em 1932, com a comédia pre-code Ladrão de Acova (Trouble in Paradise), que ele encontrou seu estilo definitivo. Especializando-se em comédias sofisticadas e inteligentes, Lubitsch sempre demonstrava sua ousadia através de temas polêmicos e sutis insinuações sexuais, principalmente na época pre-code. Após a implementação do código Hays, era preciso ter certo jogo de cintura para driblar os censores. Dentre seus principais trabalhos estão Sócios no Amor (Design for Living, 1933), no qual uma mulher vive um relacionamento com dois amigos, Ninotchka (1939), o famoso filme em que Greta Garbo dá uma sonora gargalhada, e o fofíssimo A Loja da Esquina (The Shop around the Corner, 1940).

Fredric March, Miriam Hopkins e Gary Cooper em Sócios no Amor

Miriam Hopkins, a quem já havia dirigido em Ladrão de Acova e Sócios no Amor, foi a sua escolhida para protagonizar Ser ou Não Ser, mas devido a desentendimentos com Jack Benny, a atriz decidiu deixar o projeto. Quando soube que Lubitsch, com quem almejava trabalhar há tempos, procurava uma estrela para seu novo filme, Carole Lombard imediatamente se ofereceu para a vaga. Já Jack Benny teve a honra de ter o personagem Joseph Tura criado especialmente para ele, fato que surpreendeu o próprio ator, que chegou a se intimidar e ficou inseguro na hora de gravar as cenas de comédia. No entanto, Benny considerou este o melhor papel de sua carreira e tornou-se um amigo fiel do diretor.

A despedida de Carole Lombard

Uma das últimas imagens da atriz 

Uma das atrizes mais queridas pelo público e por seus colegas de trabalho, Carole Lombard é quase uma unanimidade para todos que a conheceram. Com uma personalidade radiante, a atriz era uma conhecida tagarela e adorava fazer brincadeiras com seus companheiros de elenco. Então casada com o amor de sua vida, o ator Clark Gable, havia gravado há pouco tempo Ser ou Não Ser, filme ao qual Gable se opôs veementemente, mas que a atriz insistiu em fazer e acabou por ser a experiência mais gratificante de sua carreira, segundo alguns de seus amigos. Com a entrada dos EUA na Guerra, a atriz engajada como era, se empenhou em fazer campanhas para ajudar as tropas americanas a conseguir recursos. Em uma de suas 'turnês', onde falava animadamente para o público, Carole, ao lado da mãe, desistiu de viajar de trem e preferiu embarcar num voo partindo de Las Vegas, do qual nunca retornou com vida.


Ironicamente, uma de suas falas em Ser ou Não Ser era 'O que pode acontecer em um avião?', que acabou sendo retirada da edição final, pois o filme estreou após a morte da atriz. O ator Jack Benny se recusou a ir em diversos eventos de divulgação do longa, pois ficou muito abalado com a tragédia que tirou a vida de sua colega de elenco.

Remake em 1983


Estrelado por Mel Brooks e Anne Bancroft e dirigido por Alan Johnson, a refilmagem conta com mais ou menos o mesmo enredo da versão original e é considerado pela crítica até mais engraçado, porém inferior em termos de qualidade e conteúdo.

A versão de 1942 acaba de ser lançada pela sempre maravilhosa Obras-Primas do Cinema, em uma edição de colecionador, podendo ser encontrada nas melhores lojas do ramo. Contém como extras: Inédito curta-metragem de 1916 dirigido e estrelado por Ernst Lubitsch "Palácio Pinkus" (44 minutos); Documentário sobre a carreira do diretor (53 minutos). Para comprar, clique no nome da loja de sua preferência: Livraria da Folha; 2001 Vídeos; Livraria Cultura.

Postagens mais visitadas deste blog

O filho que Alain Delon abortou

8 atores que se suicidaram

A verdadeira Elise McKenna