As rainhas da Columbia

 

Atualmente como parte do grupo Sony, a produtora e distribuidora Columbia Pictures consolidou-se ao longo das décadas como um dos seis grandes estúdios de Hollywood, por trás de grandes clássicos como 'Rocky Balboa' (1976), 'Taxi Driver' (1976), 'Conta Comigo' (Stand by Me, 1986), 'Funny Girl' (1968) e 'A Um Passo da Eternidade' (From Here to Eternity, 1953). 

Fundada em 1918 pelos pelos irmãos Jack e Harry Cohn e seu parceiro de negócios, Joe Brandt, com o nome de Cohn-Brandt-Cohn (CBC) Film Sales Corporation, a empresa amargou alguns anos como um estúdio secundário no cenário norte-americano. Apenas em 1924, passou a ser conhecida como Columbia Pictures e a utilizar o icônico logotipo com a personificação feminina dos Estados Unidos. 


Inicialmente limitando-se a curtas e filmes de baixo orçamento, aos poucos foi começando a crescer e ousar mais em suas produções. Sua escalada rumo ao sucesso comercial começou com a chegada do diretor Frank Capra, que exigia qualidade em seus trabalhos e não se contentava com materiais de baixo custo. O lançamento de 'Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934), primeiro longa a vencer as cinco principais categorias do Oscar, finalmente colocou a empresa no mapa e, pela primeira vez, no mesmo patamar dos maiores estúdios da época.

Clark Gable, Claudette Colbert (e Shirley Temple) e Frank Capra com suas estatuetas

Apesar do rápido crescimento, a Columbia ainda não podia se dar ao luxo de ter uma grande lista de atores contratados, apelando muitas vezes para os estúdios rivais. Sua principal fonte de empréstimos era a MGM, cujo slogan era 'mais estrelas do que o céu', em alusão a quantidade de nomes famosos em seu portfólio, tais como Greta Garbo, Clark Gable e Jean Harlow. Louis B. Mayer costumava utilizar os empréstimos como forma de castigo para os astros que lhe desobedeciam de alguma forma, fazendo com que a Columbia logo ganhasse o jocoso apelido de Sibéria.


Foto da 'Família MGM' em meados da década de 40, com estrelas como James Stewart, Hedy Lamarr, Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Greer Garson e Robert Taylor

Jean Arthur

Ainda durante a década de 30, a Columbia descobriu sua primeira grande estrela na quase desconhecida Jean Arthur. Iniciando no cinema mudo, a atriz enfrentava a instabilidade em sua carreira, recebendo muitas críticas negativas por conta de sua atuação e de sua aparência. Seu papel de maior destaque até então tinha sido como coadjuvante de Clara Bow em um de seus primeiros filmes falados, 'The Saturday Night Kid' (1929), onde também contracenou com uma principiante Jean Harlow. Em 1931, após tingir suas madeixas escuras de loiro, Arthur decidiu mudar-se para Nova York e tentar a sorte nos palcos da Broadway, o que se mostrou uma decisão acertada para ela. Muito tímida e insegura, ela finalmente conseguiu adquirir confiança para atuar e encarar o público, conquistando elogios por seu desempenho no teatro. 

Jean Arthur, Clara Bow, Jean Harlow e Leona Lane

De volta a Hollywood no final de 1933, estrelou o longa 'Fatalidade' (Whirlpool , 1934), seu primeiro trabalho pela Columbia. Durante a produção, foi oferecido um contrato de cinco anos com o estúdio. Mesmo adorando os palcos, a estabilidade financeira e profissional que lhe estava sendo ofertada não era algo que pudesse recusar. No ano seguinte, Jean Arthur apareceu ao lado de Edward G. Robinson em 'O Homem Que Nunca Pecou' (The Whole Town's Talking, 1935). Aos 34 anos, a atriz finalmente começava a sentir o sabor do sucesso, arrancando elogios da crítica e com sua popularidade em franco crescimento. Sob a direção de Frank Capra, protagonizou 'O Galante Mr. Deeds' (Mr. Deeds Goes to Town, 1936), que lhe alçou ao estrelato internacionalmente. Nos anos seguintes, esteve em 'Jornadas Heroicas' (The Plainsman, 1936), este por empréstimo à Paramount, 'Garota de Sorte' (Easy Living, 1937) e no vencedor do Oscar 'Do Mundo Nada Se Leva' (You Can't Take It With You, 1938), novamente em parceria com Capra. Durante este período, chegou a ser uma das quatro finalistas para interpretar Scarlett O'Hara em 'E O Vento Levou' (Gone With The Wind, 1939).

Jean Arthur durante os testes para o papel de Scarlett O'Hara

Apesar de estar no auge de sua popularidade, protagonizando 'A Mulher Faz o Homem' (Mr. Smith Goes to Washington, 1939), 'Paraíso Infernal' (Only Angels Have Wings, 1939), 'O Assunto do Dia' (The Talk of the Town, 1942) e 'Original Pecado' (The More the Merrier, 1943) pelo qual foi indicada ao Oscar, Jean Arthur deixou a Columbia no final de seu contrato em 1944. Reza a lenda que a atriz saiu pelas ruas do estúdio gritando 'Estou livre! Estou livre!'. Um dos motivos de seu descontentamento foi sua briga com Harry Cohn após ganhar apenas a metade do salário que Cary Grant and Ronald Colman receberam em 'O Assunto do Dia'.

Rita Hayworth, Cary Grant e Jean Arthur em 'Paraíso Infernal' 

Rita Hayworth

Com Jean Arthur fora da Columbia, o reinado passou para sua coadjuvante em 'Paraíso Infernal', Rita Hayworth. Norte-americana com ascendência espanhola, Margarita Cansino teve a vida artística  imposta por sua família, fazendo aulas e apresentações de dança ao lado do pai desde a infância. Na década de 30, mudou seu nome para Rita Cansino e começou a trabalhar em pequenos papéis no cinema, geralmente interpretando jovens exóticas, das mais variadas nacionalidades. Em 1936, assinou um contrato de 7 anos com a Columbia, inicialmente tendo pouco destaque. Por conta de sua imagem excessivamente latina, Harry Cohn exigiu uma série de mudanças para 'americaniza-la'. Pela segunda e última vez, ela modificou seu nome, desta vez para Rita Hayworth, fez eletrólise para aumentar a testa e pintou os cabelos de ruivo. 

O processo de americanização de Rita Hayworth; Nota-se também mudanças nas sobrancelhas, no nariz e no queixo da atriz.

No início dos anos 40, apareceu em 'Anjos da Broadway' (Angels Over Broadway, 1940), 'Protegida de Papai' (The Lady in Question, 1940), primeiro de cinco filmes que fez com Glenn Ford, e 'Melodia em Meu Coração' (Music in My Heart, 1940). No ano seguinte, foi emprestada para a Warner onde foi coadjuvante em 'Uma Loira Com Açucar' (The Strawberry Blonde, 1941) e para a 20th Century Fox como uma das protagonistas de 'Sangue e Areia' (Blood and Sand, 1941). Ao voltar para a Columbia, estrelou ao lado de Fred Astaire o musical 'Ao Compasso do Amor' (You Never Get Rich, 1941), um dos maiores orçamentos do estúdio até então. Com o sucesso atingido, uma segunda produção reunindo a dupla logo foi providenciada, com o título 'Bonita Como Nunca' (You Were Never Lovelier, 1942). Com a estréia de 'Modelos' (Cover Girl, 1944) e a recente saída de Arthur, Rita Hayworth estabeleceu-se como o maior nome do estúdio. Atuou em 'O Coração de uma Cidade' (Tonight and Every Night, 1945) e 'Quando os Deuses Amam' (Down to Earth, 1947), mas foi no noir 'Gilda' (1946) que atingiu o auge de sua carreira, tornando-se um dos maiores símbolos sexuais do cinema e um ícone da cultura popular.

A icônica cena do striptease apenas da luva em 'Gilda'

Em 1947, ao lado do então marido Orson Welles, Rita encarnou mais uma femme fatale em 'A Dama de Shanghai' (The Lady from Shanghai). Sua indefectível cabeleira ruiva até os ombros deu lugar a curtas madeixas platinadas, para a fúria do controlador Harry Cohn, que não havia sido consultado para a mudança da imagem de sua musa. O filme acabou sendo um fracasso de bilheteria, embora a crítica tenha sido muito elogiosa ao seu desempenho. No ano seguinte, já com seu visual restabelecido e novamente ao lado de Glenn Ford, transformou-se em uma cigana sedutora em 'Os Amores de Carmen' (The Loves of Carmen, 1948), recebendo pela primeira vez uma porcentagem dos lucros. 

Ao lado de Orson Welles nos bastidores do polêmico 'A Dama de Shanghai'

Embora ainda legalmente casada com Welles, Rita conheceu durante uma viagem a Cannes o charmoso príncipe Aly Khan e os dois logo iniciaram um romance. Subiram ao altar em 1949, tornando-a a primeira atriz a receber o título oficial de princesa. Cansada de sua vida no showbiz, decidiu deixar Hollywood e iniciar uma nova vida na França, ao lado do marido, quebrando assim seu contrato com a Columbia. Mas não demoraria muito para que a bela descobrisse que seu príncipe não tinha nada de encantado. Conhecido por seu estilo bon vivant, Aly Khan levava uma vida extravagante e agitada, não se contentando com apenas uma mulher, mesmo que ela fosse uma das deusas do cinema. Além do mais, as inúmeras obrigações impostas à sua nova posição e as dificuldades com o francês fizeram com que a relação entre os dois terminasse em separação. Em 1951, ela partiu para Nova York com suas duas filhas, divorciando-se oficialmente em 1953.

Com o marido Aly Khan

Seu retorno às telas aconteceu em 'Uma Viúva em Trinidad' (Affair in Trinidad, 1952), que chegou a arrecadar um milhão de dólares a mais do que 'Gilda' nas bilheterias. Continuou sendo bem-sucedida com os longas 'Salome' (1953) e 'Mulher de Satã' (Miss Sadie Thompson, 1953), recriando a personagem que já havia sido feita por Gloria Swanson e Joan Crawford. Um novo matrimônio, este com o cantor Dick Haymes, afastou-a outra vez da vida artística. O outrora promissor Haymes estava agora endividado, sendo processado pelas duas esposas anteriores pelo não pagamento de pensões alimentícias, além de ter problemas com a imigração por não conseguir provar sua cidadania americana. A turbulenta união entre os dois foi repleta de fortes emoções, com pilhas de dívidas, ameaças de prisão e muito álcool. Após ser agredida em público pelo marido , a atriz deu um ponto final no já fragilizado relacionamento. Voltando-se novamente para sua carreira após quatro anos afastada, Rita já não era mais o principal nome da Columbia. Durante sua ausência, a jovem Kim Novak havia assumido seu posto de rainha. A ruiva ainda estrelaria 'Lábios de Fogo' (Fire Down Below, 1957), 'Meus Dois Carinhos' (Pal Joey, 1957), junto com a própria Novak e Frank Sinatra, e 'Heróis de Barro' (They Came to Cordura, 1959), antes de deixar para sempre o estúdio. 

Kim Novak, Rita Hayworth e Frank Sinatra fotografados nos bastidores de 'Meus Dois Carinhos'

Kim Novak

Para além de uma substituta para o cargo de Hayworth como maior nome da Columbia, Kim Novak surgiu para Harry Cohn como a resposta perfeita para outro dilema. Marilyn Monroe havia despontado para o sucesso e ganhava rios de dinheiro para a 20th Century Fox com papéis estereotipados, que a própria atriz odiava. Com isso, todos os estúdios buscavam ter sua própria versão da loira sexy e inocente que o público tanto parecia adorar. Jayne Mansfield, Diana Dors e Mamie Van Doren foram algumas das mais famosas escolhas; 


Nascida Marilyn Pauline Novak, a então modelo e figurante da RKO, assinou um contrato de longo prazo com a Columbia, tendo como missão ser uma espécie de mistura de Rita Hayworth e Marilyn Monroe. Ironicamente, a bela jovem, que tanto buscava ter sua própria personalidade, precisou mudar seu nome (Marilyn) para ser lançada pelo estúdio como uma nova Monroe. Cohn escolheu 'Kit Marlowe' como sua alcunha, mas ela permaneceu firme insistindo para manter seu sobrenome 'Novak'. Os dois lados chegaram a um acordo e 'Kim Novak' foi o nome vencedor. Seu primeiro filme pelo estúdio foi no noir 'A Morte Espera no 322' (Pushover, 1954), seguido pela comédia 'Abaixo o Divórcio' (Phffft, 1954), ambos com papéis coadjuvantes. No ano seguinte, protagonizou ao lado de Guy Madison 'No Mau Caminho' (5 Against the House, 1955), obtendo pouco reconhecimento. 'Férias de Amor' (Picnic, 1955) transformou-a em uma estrela, vencedora do Globo de Ouro como maior revelação daquele ano e indicada ao BAFTA como melhor atriz estrangeira. Ainda em 1955, protagonizou ao lado de Frank Sinatra outro sucesso de bilheteria, 'O Homem do Braço de Ouro' (The Man with the Golden Arm).


Seus próximos projetos, além de 'Meus Dois Carinhos (Pal Joey, 1957), foram os biográficos 'Melodia Imortal' (The Eddy Duchin Story, 1956) e 'Lágrimas de Triunfo' (Jeanne Eagels, 1957), onde interpreta a polêmica atriz do cinema mudo. O longa gerou um processo movido pela família de Eagels, que considerou pejorativa a forma com a qual ela é retratada. 

Como Jeanne Eagels em 1957

Em 1958, em meio a boatos de um polêmico romance com Sammy Davis Jr., Kim Novak foi dirigida por Alfred Hitchcock naquele que seria seu filme mais emblemático. Substituindo Vera Miles, primeira escolha do diretor, que havia abandonado a produção após descobrir-se grávida, a atriz teve a oportunidade de mostrar seu talento interpretando dois papéis em Um Corpo Que Cai (Vertigo). A loira afirmou certa vez: 'Do meu ponto de vista, quando li pela primeira vez aquelas linhas onde ela diz: "Eu quero que você me ame por mim", e todas as conversas naquela cena, eu me identifiquei muito com isso porque ir para Hollywood como uma jovem garota e de repente descobrir que eles querem te transformar totalmente, é uma mudança total e era como se eu estivesse sempre lutando para mostrar um pouco de mim, sentindo que eu queria estar lá também. Era como se eles penteassem meu cabelo e refizessem um monte de coisas. Então eu realmente me identifiquei com o fato de alguém que estava sendo substituído pelo ressentimento, pelo desejo, precisando de aprovação e querendo ser amado e disposto, eventualmente, a fazer qualquer coisa para conseguir isso mudando seu cabelo e todas essas coisas. E então quando Judy aparece, é outra história e então quando ela tem que passar por essa mudança. Eu realmente me identifiquei com o filme porque dizia: "Por favor, veja quem eu sou. Apaixone-se por mim."

Com Alfred Hitchcock nos bastidores de 'Um Corpo Que Cai'

Voltou a se reunir com James Stewart ainda no mesmo ano, na comédia-romântica 'Sortilégio de Amor' (Bell, Book and Candle), que provou-se um sucesso de bilheteria, ao contrário do primeiro encontro dos dois. Embora o longa de Hitchcock tenha o merecido reconhecimento nos dias de hoje, na época de seu lançamento foi um fracasso de público e crítica; Protagonizou ao lado de Fredric March o drama 'Crepúsculo de uma Paixão' (Middle of the Night, 1959), o qual afirmou ser seu desempenho favorito. Seus trabalhos seguintes foram os bem-sucedidos 'O Nono Mandamento' (Strangers When We Meet, 1960) e 'Aconteceu Num Apartamento' (The Notorious Landlady, 1962). Após um contrato independente com outra produtora, apareceu na comédia 'Uma Vez Por Semana' (Boys 'Night Out, 1962) e na refilmagem de 'Servidão Humana' (Of Human Bondage, 1964), ambos sem muito destaque. 

Em cena de 'Sortilégio de Amor'

Seu próximo projeto foi na comédia de Billy Wilder 'Beija-me, Idiota!' (Kiss Me, Stupid, 1964), que acabou tendo problemas com a Legião da Decência por conta de piadas consideradas apimentadas demais. No ano seguinte, interpretou a personagem- título em 'As Aventuras Escandalosas de uma Ruiva' (The Amorous Adventures of Moll Flanders, 1965), inspirado em 'As Aventuras de Tom Jones' (Tom Jones,1963), protagonizado por Albert Finney. Foi escada para o drama sobre ocultismo 'O Olho do Diabo' (Eye of the Devil, 1966), ao lado de David Niven e Sharon Tate, mas acabou se retirando da produção, sendo substituída por Deborah Kerr. Cansada da sequência exaustiva de gravações e emocionalmente abalada após um deslizamento de terra que destruiu sua casa, a atriz decidiu deixar Hollywood e diminuir o ritmo de trabalho.

A atriz em seu refúgio em Big Sur

Após sua mudança, passou a dedicar-se à pintura, à poesia e começou a compor músicas, que chegaram a ser gravadas por cantores como Harry Belafonte. Voltou ao cinema no longa 'A Lenda de Lylah Clare' (The Legend of Lylah Clare, 1968), que teve uma péssima recepção e foi fortemente criticado. Sem que ela soubesse, o diretor Robert Aldrich decidiu dublar sua voz em diversas cenas, já que sua personagem deveria ter um forte sotaque alemão. Seu último filme na década de 60 foi 'O Grande Roubo do Banco' (The Great Bank Robbery, 1969). Nos anos subsequentes, a atriz apareceu em filmes esporadicamente, com destaque para 'Testemunha da Loucura' (Tales That Witness Madness, 1973), 'Apenas um Gigolô' (Just a Gigolo, 1979), 'A Maldição do Espelho' (The Mirror Crack'd, 1980), 'As Crianças' (The Children, 1990) e 'Liebestraum - Atração Proibida' (Liebestraum, 1991), além de participações em programas de televisão. Aposentou-se definitivamente em 1992.

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