Do Mundo Nada Se Leva (You Can't Take It with You, 1938)


Embora o diretor tenha um papel fundamental em um filme, é comum que a maior parte do público preste atenção apenas nos atores, muitas vezes deixando de lado a importância da direção. No entanto, alguns cineastas tem o poder se passar sua essência para os longas, fazendo com que os espectadores imediatamente reconheçam suas marcas registradas refletidas na tela. Exemplos de casos como este são o mestre do suspense Alfred Hitchcock, com seu indefectível humor negro, ou Douglas Sirk, com seus magníficos dramalhões. E é nesta categoria que também se encaixa o sempre fantástico Frank Capra. Muitas vezes diminuído pelos críticos, por utilizar temáticas consideradas bobas e simples, seus trabalhos geralmente eram comédias românticas e filmes 'edificantes'.

Frank Capra ao lado de seu 'muso' James Stewart

Seus dois atores preferidos eram James Stewart e Jean Arthur, que fizeram par romântico em dois longas sob sua direção: Do Mundo Nada Se Leva (You Can't Take It with You, 1938), o nosso filme de hoje, e A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939). Com Arthur já havia trabalhado anteriormente em O Galante Mr Deeds (Mr. Deeds Goes to Town, 1936), e com Stewart como protagonista fez sua obra mais aclamada: A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, 1946). Sua filmografia inclui também clássicos como Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934), com Clark Gable e Claudette Colbert, Adorável Vagabundo (Meet John Doe, 1941), com Barbara Stanwyck e Gary Cooper, Este Mundo é um Hospício (Arsenic and Old Lace, 1944), com Cary Grant e Priscilla Lane, e Os Viúvos Também Sonham (A Hole in the Head, 1959), dentre outros.


Em Do Mundo Nada Se Leva temos todas as principais características das produções mais famosas de Capra, a tal 'essência' citada no início da matéria: Personagens encantadores, uma história de amor, cenas de comédia, protagonistas passando por dificuldades e um final edificante. Apesar da fórmula pronta é impossível não amar!


Como uma boa parte das comédias-românticas da década de 30, o início é um pouco mais lento, com muitos diálogos, para que o público primeiramente conheça um pouco a rotina e as particularidades dos personagens, antes que a história em si aconteça. Assim, entramos em dois mundos completamente opostos. De um lado, a família Kirby, elitista e ambiciosa, da qual Tony (James Stewart) faz parte, apesar de não compactuar com o pensamento de seus pais; Do outro, o louco e divertido clã de Martin Vanderhof (Lionel Barrymore), um homem que desistiu dos negócios para viver a vida de maneira plena, decidindo fazer apenas o que gosta, e passando estes valores para seus entes queridos. Sua neta, Alice Sycamore (Jean Arthur), trabalha na empresa dos Kirby e namora Tony em segredo.


Tony e Alice acabam tendo seu romance descoberto e decidem que se amam o suficiente para oficializar a união. Como era de se imaginar, os pais do rapaz não ficam nada satisfeitos com a escolha do filho, que não condiz com sua posição social, mas concluem que o melhor a fazer é fingir aceitar a jovem, já que a oposição pode juntar ainda mais o apaixonado casal. A família de Alice, no entanto, recebe muito bem a notícia, tratando Tony da melhor maneira possível.


Os parentes da jovem incluem seu avô, seus pais, a irmã, com seu respectivo marido, e os 'agregados': alguns amigos que estão sempre presentes na casa. A rotina familiar engloba aulas de balé na sala, testes de fogos de artifício, preparação de doces, invenções de brinquedos e peças de teatro sendo escritas na máquina de escrever, tudo acontecendo simultaneamente e na mais absoluta harmonia. Apesar da aparente loucura, todos vivem muito felizes, dedicando-se apenas ao que lhes da prazer, e é exatamente esse gritante contraste com sua própria realidade que mais encanta e surpreende Tony. Alice não tem a mesma sorte ao ser oficialmente apresentada aos sogros. Durante um encontro entre as duas famílias, absolutamente tudo da errado e a catastrófica noite piora ainda mais com todos indo parar atrás das grades por um mal-entendido.


Por uma infeliz coincidência, o Sr Kirby ambicionava comprar todas as casas do bairro, mas seu negócio andava sendo prejudicado por conta de um único morador que se recusava a vender sua propriedade: Martin Vanderhof. Após ter sido diminuído durante toda a noite e descobrir que Kirby vinha armando durante meses para comprar sua casa, Martin acaba explodindo e falando tudo o que pensa sobre o arrogante magnata e a verdadeira importância da vida.


Martin Vanderhof é um homem viúvo, ainda apaixonado por sua esposa mesmo após anos de sua perda, que considera os amigos e a família os bens mais preciosos de um homem. Para ele, o dinheiro é apenas um detalhe, que de nada adianta se for adquirido através de sacrifícios, Sua filosofia de vida prega que o importante é fazer o que se ama para que seus dias tenham mais momentos felizes do que aborrecimentos. Mesmo sendo obrigado a usar muletas por conta de um acidente, artifício utilizado no filme por conta de problemas reais do ator Lionel Barrymore, ele faz questão de se manter ativo e influenciar o maior número de pessoas com suas atitudes positivas. Mas apesar de todo o seu esforço, o relacionamento de Alice e Tony chega ao fim, pois a moça não suporta as humilhações sofridas por ela e sua família, sem que seu noivo tomasse partido.


Mas é um filme de Frank Capra, não é mesmo? Então sabemos que o final é sempre feliz, e assim o Sr Kirby observa os acontecimentos ao seu redor e percebe que apesar de toda a sua fortuna, ele se encontra sozinho e infeliz, além de ter causado o sofrimento de seu próprio filho. Decidido a mudar de atitude, ele vai até Martin se desculpar e pedir conselhos, ao mesmo tempo em que Tony e Alice se reencontram e acabam fazendo as pazes. Apesar de na vida nem tudo ser perfeito como no cinema, e nem todos poderem se dar ao luxo de fazerem apenas as atividades que amam, é impossível não terminar o longa com um sorriso no rosto e a sensação de que o mundo não é tão ruim quanto possa parecer. É importante haver o equilíbrio entre o idealismo excessivo, que na vida real na maioria das vezes acaba em decepção, e a percepção de que de fato desse mundo aqui nada se leva, e é inútil associar a felicidade apenas aos bens materiais, já que todos nós, ricos e pobres, iremos no final para o mesmo lugar. Fundamental é aproveitar ao máximo os pequenos prazeres e os momentos de felicidade.

Elenco do filme

Ganhador do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor, conta com um elenco afinadíssimo, desde seus protagonistas, até os coadjuvantes, dentre eles uma adolescente Ann-Miller, então com 15 anos, em seu primeiro papel, o qual classificou como uma experiência mágica, apesar de surpreendentemente ter tido muitas dificuldades nas cenas de dança. Ela sentia muitas dores nos pés, mas tentava manter em segredo da equipe, tendo sido certa vez flagrada aos prantos por James Stewart, que tentou consola-la, mesmo sem saber o motivo do choro. Destaque da produção, Lionel Barrymore trabalhou novamente ao lado de James Stewart e Frank Capra em A Felicidade Não Se Compra.

O dvd está sendo lançado no Brasil pela Classicline e é um filme que vale a pena ter em sua coleção. Você encontra nas melhores lojas do ramo, como a Fnac e a Livraria da Folha.

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