Mamãezinha Querida (Mommie Dearest, 1981)


Baseado no best-seller auto-biográfico de mesmo nome escrito por Christina Crawford, o filme tem a pretensão de levar para as telas a verdadeira face de Joan Crawford, que por trás da imagem de boa mãe, escondia uma mulher narcisista, tirana e calculista. Uma das produções mais polêmicas do cinema, o longa estrelado por Faye Dunaway foi um grande sucesso de público, no entanto foi fortemente esculhambado pela crítica.


A História

O filme se inicia com os rituais de beleza de uma diva do cinema. Nos primeiros minutos, não a vemos de frente. Ela acorda cedo, vai até o banheiro, onde lava seu rosto com água quente, para depois mergulha-lo em uma bacia de gelo, fazendo com que o choque térmico beneficie sua pele. Já arrumada, ainda de madrugada, parte para os estúdios da MGM em seu carro, onde revisa o roteiro já memorizado de seu atual trabalho, Folias no Gelo (The Ice Follies, 1939), e aproveita parte do tempo livre para autografar fotos para seus fãs. Após algumas horas de maquiagem, la está ela, com toda sua aura de estrela: Joan Crawford.

Faye Dunaway em sua primeira aparição no longa

Imagem real de Joan Crawford em Folias no Gelo, ao lado de James Stewart

Apesar de toda sua fama e sucesso, falta algo na vida de Joan: Ela deseja ardentemente ser mãe! Após tentativas falhas em seus casamentos anteriores, a atriz decide adotar uma criança recém-nascida. É então que chega em sua vida a pequena Christina. Vinda de origem humilde, Joan aprendeu desde cedo a enfrentar suas dificuldades, tendo que trabalhar duro para chegar onde chegou. Decidida a dar uma boa vida para sua filha, ela também teme que a criança cresça mimada e sem dar valor ao que tem. Embora inicialmente se mostre uma mãe amorosa, especialmente na frente da imprensa, ela logo começa a ser rigorosa e exigente com Christina, estipulando que ela doe seus presentes e treine mais do que aguenta, para aprender desde o início que é preciso se esforçar, porque a vida nem sempre é justa.


Aos poucos, a vida perfeita de Joan começa sofrer alguns abalos. No duro sistema de Hollywood, as mulheres precisavam se manter sempre no topo, com sucessivos êxitos de público e aproveitando enquanto ainda eram jovens. Com dificuldade em conseguir bons papéis, e se aproximando dos 40 anos, o prestígio da atriz já não era mais o mesmo, fazendo com que ela fosse considerada um 'veneno de bilheteria' em meados dos anos 40. O chefão da MGM, Louis B. Mayer, não jogava para perder e, sem muita hesitação, a demite. Com isso, a fúria de Joan atinge seu ápice, fazendo com que ela destrua todo seu jardim em um ataque de ódio.


Cada vez bebendo mais, Joan se mostra uma mãe dura e tirana, frequentemente tendo ataques de estrelismo e descontando sua raiva nos filhos adotivos, Christina e Christopher. Em uma das cenas mais antológicas e bizarras no longa, Crawford tem um ataque absolutamente histérico e dramático ao se deparar com um cabide de arame no armário de sua filha, dando uma surra na menina e obrigando ela a limpar toda a bagunça.


Apesar de ter perdido seu contrato com a MGM, sua carreira ganha novo fôlego quando ela começa a trabalhar na Warner e estrela o drama de 1945, Almas em Suplício (Mildred Pierce), pelo qual ganhou seu primeiro e único Oscar. Christina é enviada contra a sua vontade para uma escola interna, onde passa a estudar por vários anos. Após uma passagem de tempo, a jovem, agora uma adolescente, começa a fazer teatro, onde conhece um rapaz, por quem se interessa. Durante um encontro romântico, Tina é flagrada aos beijos e acaba sendo forçada pela mãe a deixar o colégio. Ao chegar em casa, as duas tem sua pior briga, que chega a ter uma luta corporal com direito a tentativa de estrangulamento.


Christina é enviada para uma escola católica, onde passa por períodos difíceis e consegue se formar. Ao retornar para a casa onde cresceu, conhece seu novo padrasto, Alfred Steele, um dos acionistas da Pepsi. O casamento de sua mãe, embora aparentemente feliz, dura pouco, pois Steele morre apenas alguns anos depois, fazendo com que Joan seja sua herdeira na diretoria da empresa. Quando percebe que os outros acionistas planejam expulsa-la, ela mostra toda sua habilidade para os negócios, demonstrando que não seria fácil derrota-la e conseguindo seu objetivo.


Christina, agora uma mulher independente e tentando a vida como atriz, mantém menos contato com sua mãe. As duas tem uma relação mais estável e com poucos atritos. A jovem consegue um papel na televisão, que Joan faz questão de acompanhar diariamente. Mas após um problema de saúde, que a obriga a se afastar do trabalho, ela descobre que sua mãe foi escalada para substituí-la, mesmo com a grande diferença de idade, fazendo com que ela se sentisse ameaçada. Apesar disso, as duas passam a ter uma relação mais amigável até a morte de Joan, em 1977. Durante a leitura do testamento, Christina e seu irmão Christopher recebem um duro golpe: Não herdaram absolutamente nada. O filho comenta com a irmã como Joan sempre tinha que ter a última palavra sempre, e a tela vai se fechando no rosto de Christina, que responde, enquanto caem suas lágrimas, 'Sera?'.

Controvérsias 



Após a publicação do livro, em 1978, muitos colegas e amigos pessoais de Joan, vieram a público desmentir as alegações escritas, dentre eles Van Johnson, Barbara Stanwyck, Ann Blyth , Marlene Dietrich , Myrna Loy, Katharine Hepburn, Cesar Romero, Gary Gray, Betty Barker (secretária de Joan por quase 50 anos), Douglas Fairbanks Jr. (o primeiro marido de Crawford ), e até sua rival histórica Bette Davis. As filhas gêmeas de Crawford, Cathy e Cindy, que também foram adotadas, negaram veementemente que a atriz fosse uma mãe abusiva. No entanto, outros atores, como Helen Hayes, James MacArthur, June Allyson, Rex Reed, e Betty Hutton, além do próprio Christopher, filho de Joan, confirmam as declarações de Christina. Há quem acredite que Joan sofria de problemas psiquiátricos, como transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline, além de compulsão por limpeza.

Curiosidades



A primeira escolha para interpretar o papel principal do longa foi Anne Bancroft, mas após ler o roteiro e perceber que o objetivo do filme era avacalhar a imagem de Joan Crawford, ela se retirou da produção. Muitas outras atrizes recusaram o papel pelo mesmo motivo. Franco Zeffirelli iria dirigir o longa, mas Christina não aprovou sua visão amigável da atriz, retratando-a como uma mártir destruída por Hollywood. Faye Dunaway, que curiosamente havia sido mencionada pela própria Joan Crawford em sua auto-biografia como uma das únicas atrizes da nova geração com características de uma estrela, fez questão de lutar pelo papel, aparecendo na casa do diretor Frank Perry vestida como Joan, para mostrar que era perfeita para estrelar o filme. 


Faye Dunaway, alias, tinha convicção absoluta de sua qualidade como atriz e já conjecturava ganhar o Oscar por sua interpretação, imaginando que este seria o seu maior papel e consolidaria sua carreira. O que aconteceu foi exatamente o contrário. Embora tenha sido um grande sucesso de público, o longa foi massacrado pela crítica e a atuação de Faye foi ridicularizada, tida como excessivamente dramática e caricata, ganhando uma indicação ao Framboesa de Ouro. O filme é conhecido por ter destruído sua promissora carreira de atriz, que conta com sucessos como Bonnie e Clyde (1967), Chinatown (1974), Inferno na Torre (1974), dentre outros, além de ter vencido o Oscar por Rede de Intrigas (1976). Os próprios produtores consideram hoje em dia um erro ter colocado cenas exageradas, como a das rosas e a do cabide. Esta última, com grande liberdade criativa de Faye, que escolheu o figurino e a maneira de levar toda a sequência. Apesar disso, o sucesso de público do longa se mantém, sendo considerado um clássico trash cult.


Faye Dunaway, considerada pela produção uma verdadeira megera, se recusa terminantemente a dar entrevistas sobre o filme. Segundo Christina Crawford, Faye teria confidenciado que vem sendo assombrada pelo fantasma de Joan. Apesar das críticas, em minha opinião pessoal, a Faye está bem no filme, embora um pouco caricata, e com exceção das cenas histéricas, que parecem retiradas de uma novela mexicana.


O filme se passa num período de 39 anos. A personagem Carol Ann, interpretada por Rutanya Alda, é inspirada em três profissionais diferentes que trabalharam para Joan Crawford durante este período. 

Joan Crawford


Embora o filme mostre uma mulher obsessiva e desequilibrada, Joan era descrita como uma excelente profissional e uma atriz devotada aos seus fãs. Fazia questão de assinar pessoalmente suas fotos e responder as cartas que lhe eram enviadas, pois acreditava que devia todo seu sucesso ao público e deveria sempre retribuir o carinho. Seu profissionalismo é sempre ressaltado por seus colegas. Costumava chegar sempre cedo e com o texto decorado. Confira seus principais trabalhos


A história contida no livro arranhou fortemente a imagem de Crawford, que perdeu muitos de seus fãs e admiradores, no entanto é impossível afirmar que as alegações de Christina são realmente verdadeiras ou se foram aumentadas para que a polêmica lhe gerasse lucros, já que ela havia sido excluída do testamento da mãe. Estranho que ela se mostre uma filha amorosa e resignada, apesar de todos os supostos maus-tratos de sua mãe, e tenha demonstrando tanto ódio apenas pelo dinheiro, ao perceber que não herdaria nada. Fato é que após a publicação do best-seller de Christina, outros filhos de lendas do cinema também publicaram suas histórias sobre as relações com seus pais famosos, como as filhas de Bette Davis e Marlene Dietrich.

O filme acaba de ser lançado pela Obras-Primas do Cinema e pode ser adquirido nas principais lojas do ramo. Clique para comprar

Imagens de Joan com seus filhos



Áudio do programa natalino retratado no filme, originalmente feito em 1949


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