quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Confidências à Meia-Noite (Pillow Talk, 1959)


Embora se trate de uma deliciosa comédia-romântica, Confidências à Meia-Noite vai muito além da simples história do casal que se apaixona e, após muitas confusões e mal-entendidos, termina junto para alívio do público. Quer dizer, é claro que, como em qualquer outro filme do gênero, a trama é exatamente essa, no entanto, o longa é um dos mais representativos retratos da transição da sociedade dos anos 50 para a década seguinte.


Com inúmeras insinuações sexuais, como diálogos de duplo sentido, homossexualidade subentendida e até cenas de nudez, os anos 20 e 30 podem ser considerados um período muito mais ousado do que as décadas posteriores. Após a criação do Código Hays, em 1930, as produções teatrais e cinematográficas passaram a ser alvo de censores religiosos e puritanos. Embora no início da década a grande parte dos estúdios tenha ignorado a imposição, em 1934 o código passou a vigorar em fato, impedindo que cenas consideradas inapropriadas fossem parar nas telas.

O famoso beijo lésbico de Greta Garbo em Rainha Christina (1933), ainda na era pre-code

Com a censura presente, os filmes passaram a ter a obrigação de dar bons exemplos ao público, criando basicamente dois esteriótipos femininos: a santa e a devassa. Em grande parte das produções deste período, observa-se um padrão de comportamento, onde há as boas moças, que terminam felizes para sempre e se casam com seu amado, e as meninas más, que podem até se divertir e aprontar ao longo do filme, mas no final terão que se arrepender ou caminharão para um destino amargo. 

Bette Davis costumava desempenhar papéis de menina má punida no final

Com a chegada dos anos 50, duas campeãs de bilheteria se destacavam no contraste destes dois tipos de mulheres: Doris Day e Marilyn Monroe. Embora o carisma e a inocência de Marilyn amenizassem bastante a necessidade de punição de suas personagens, ela inevitavelmente remetia ao sexo, representando assim a 'mulher para se divertir', não a 'para casar'. Já Doris Day era a personificação da perfeição feminina, que defendia com unhas e dentes sua virgindade e só se sentia segura ao lado de um homem mediante uma aliança em seu dedo. 

Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado, representando a sensualidade com um toque de inocência

Embora seja uma das atrizes mais queridas da Era de Ouro, grande parte da filmografia de Doris Day parece bastante datada nos dias de hoje. Ao assistir filmes como Paris em Abril (1952) ou Carícias de Luxo (1962), percebemos o quão sexista e até mesmo sem sentido é o enredo, ao retratar como dilema central as relações de uma mulher adulta e independente que só considera correto fazer sexo depois do casamento. É claro que, apesar de ultrapassados, esses filmes permanecem sendo deliciosos e valiosos historicamente, representando parte do pensamento e comportamento da sociedade de uma época.

Doris Day e Cary Grant em Carícias de Luxo (1962)

Embora a própria Marilyn Monroe tenha se interessado em interpretar a personagem Jan Morrow, foi Doris Day a escolha certeira dos produtores para estrelar Confidências à Meia-Noite. Ao final dos anos 50, os valores da sociedade e a quantidade cada vez maior de mulheres no mercado de trabalho, começaram a mudar o pensamento feminino, fazendo com que surgissem mulheres independentes e seguras, capazes de ganhar seu próprio dinheiro e terem ambições para a própria vida, muito além de serem apenas donas de casa e cuidarem dos maridos e filhos. Essa mudança gradativa começou a ser vista também no cinema, onde cada vez mais personagens femininas tinham uma carreira e sua independência financeira. No entanto, a necessidade de casar para se sentir plenamente realizada continuava presente.


Confidências à Meia-Noite se passa exatamente nesta fase. Doris interpreta uma mulher auto-suficiente, que possui um belo apartamento e trabalha como decoradora, sendo muito valorizada em sua profissão. O único problema em sua rotina bem organizada atende pelo nome de Brad Allen, um galanteador com quem se vê obrigada a dividir sua linha telefônica. Sempre que precisa fazer uma ligação, Jan esbarra com Don Juan fazendo juras de amor para uma vítima diferente. Cínico, ele canta a mesma música para todas, apenas modificando o nome da conquista do dia na letra da canção.


Acidentalmente, Brad escuta uma conversa da mesa vizinha em um restaurante e constata que a megera que implica com seus telefonemas, na verdade é uma bela mulher. Sabendo que ela nunca lhe daria nenhuma chance se soubesse quem ele realmente era, o rapaz se faz passar por um perfeito cavalheiro texano, extremamente respeitador e fiel. No decorrer dos encontros, Jan se vê perdidamente apaixonada, fazendo planos para o futuro dos dois, sem imaginar as reais intenções de Brad. Após uma viagem para o campo, os dois pretendem ter uma noite romântica, porém Jan descobre que seu amado é na realidade o mulherengo Brad Allen, enquanto o jovem se da conta de que acabou se apaixonando por ela.


Com a chegada dos anos 60, essa linha de roteiro foi sendo cada vez menos frequente, no entanto o filme foi um enorme sucesso, fazendo com que a dupla Doris Day e Rock Hudson se tornasse uma das mais queridas pelo público, repetindo a parceria outras duas vezes, em Volta Meu Amor (1961) e Não Me Mandem Flores (1964). Rock Hudson, alias, chegou a recusar o roteiro três vezes, temendo que o filme pudesse de alguma forma arranhar sua imagem. Assim como as damas deveriam ser imaculadas até sua noite de núpcias, era aconselhável que todos os homens ostentassem grande quantidade de testosterona para o público. Sendo homossexual, Hudson fazia de tudo para manter as aparências e continuar como o galã másculo imposto pelos estúdios, chegando inclusive a submeter-se a um casamento arranjado com Phyllis Gates, a secretária de seu agente.

Rock Hudson e Phyllis Gates no dia de seu casamento, em 1955

Sobre sua fama de puritana, Doris Day declarou certa vez que nunca tinha sido sua intenção criar qualquer tipo de imagem neste sentido, nem com sua atuação, em filmes alegres e inocentes em sua maioria, e nem por seu comportamento na vida privada. O ator Oscar Levant, que contracenou com ela no longa Romance em Alto Mar (1948), fez a célebre afirmação de que conheceu Doris Day antes mesmo dela se tornar virgem. No entanto, a atriz defende fortemente a ideia de que ninguém deveria se casar antes de morar com seu parceiro por pelo menos alguns meses, e que ela própria não teria subido ao altar com Al Jorden e George Weidler caso tivesse convivido com eles anteriormente.


Doris e Rock tornaram-se grandes amigos por toda a vida. As últimas aparições públicas do ator, inclusive, foram no programa apresentado por Doris e na coletiva de imprensa que anunciava sua participação. Diferente do homem forte e cheio de vida que costumava ser, seu físico na ocasião denotava uma grande fragilidade. Os meios de comunicação noticiaram incansavelmente sobre o chocante contraste de sua aparência, havendo inúmeras especulações sobre o que teria acontecido. Um ano antes, ele havia sido diagnosticado com AIDS, até então uma doença vista com preconceito e associada aos homossexuais. Embora seu agente tenha feito um comunicado afirmando que Hudson sofria de câncer no fígado, porém pouco tempo depois foi obrigado a dizer a verdade, ainda que alegando que o vírus foi contraído durante uma transfusão de sangue. Após seu falecimento, sua homossexualidade tornou-se pública, sendo matéria em muitas publicações da época, como a revista People. A confirmação de um ator tão famoso e querido como Rock Hudson ser soropositivo ajudou enormemente a melhor aceitação da doença, fazendo com que as pessoas tivessem acesso a mais informações, além do aumento considerável de doações para instituições que ajudavam outros pacientes. Abaixo, parte do programa de Doris:


Uma curiosidade sobre os três filmes com Doris e Rock é que, na realidade, eles não eram uma dupla e sim um trio, que formavam com Tony Randall, já que o ator teve papéis importantes em todos os longas em que os amigos atuaram juntos (Confidências à Meia Noite, Volta, Meu Amor e Não Me Mandem Flores).

Rock Hudson, Doris Day e Tony Handall

Para quem quiser conferir, Confidências à Meia-Noite foi lançado em dvd pela Classicline e encontra-se disponível nas melhores lojas do ramo, como a Saraiva e a Livraria Cultura (clique no nome se quiser ir direto para o link).

2 comentários:

  1. Critica muito boa. Mas é triste como os estúdios podiam ter explorado bem mais o papeis dos homens e mulheres nas décadas de 1950 a 1960. Mas valeu de qualquer forma o registro...

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    1. Muito obrigada! <3 Pois é, infelizmente a censura da época podava demais os roteiros dos filmes. Embora muita gente goste dessa coisa da inocência da época, eu mesma gosto, mas ao mesmo tempo não deixa de ser algo incômodo em determinadas histórias.

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