Grey Gardens, 1975


É difícil definir os sentimentos de quem assiste Grey Gardens pela primeira vez. Um misto de pena, admiração, carinho e incredulidade se apossam do espectador no decorrer do documentário, que mergulha na intimidade de Edith "Big Edie" Ewing Bouvier Beale e Edith "Little Edie" Bouvier Beale, retratando o cotidiano de mãe e filha vivendo em uma casa caindo aos pedaços. As duas mulheres mantêm uma relação com altos e baixos, com momentos de cumplicidade e ressentimento. Apegadas ao passado, muitas vezes demonstram viver em uma realidade própria, sem perceber a situação em que se encontram de fato.

Mãe e filha


Big Edie, apelido de Edith Ewing Bouvier Beale, era irmã de John Bouvier e tia de Jacqueline Kennedy Onassis. Bem educada, fazia aulas de canto e apresentações como cantora amadora. Em 1917, casou-se com o advogado Phelan Beale, com quem teve três filhos: Edith, Phelan Beale, Jr. e Bouvier Beale. Em 1923, o casal comprou uma mansão em East Hampton, Nova York, chamada Grey Gardens.

Big Edie em sua juventude

Foi em 1931 que o castelo de cartas da família começou a desmoronar, quando os Beale se separaram. Bem nascida, Edith havia crescido em uma família rica e casado com um homem capaz de manter seu estilo de vida, morando em uma casa enorme de excelente localização. Com a separação, ela se viu sozinha, com três filhos para criar e uma mansão a ser mantida. Sem receber nenhuma pensão alimentícia, Big Edie persistiu em sua carreira como cantora, realizando pequenos recitais, mas sem ter um trabalho fixo. Após alguns anos, seus filhos começaram a ter suas próprias vidas, indo para a faculdade e tendo suas próprias famílias.


Edith claramente começou a desenvolver problemas psicológicos, tornando-se deprimida e ganhando peso. O fato tornou-se evidente em 1942, quando compareceu ao casamento de um de seus filhos, vestida de maneira extravagante, como uma grande cantora de ópera. Com isso, seu pai, Major Bouvier,, decidiu cortar a maior parte da ajuda financeira que lhe dava. A década de 40 foi bastante difícil para Edith. Além da morte dos pais (a mãe em 1940 e o pai em 1948), ela foi constantemente acometida por problemas de visão, tendo que se submeter a operações, além de ter sido friamente notificada da oficialização de seu divórcio, através de um telegrama enviado do México. 


Nascida em berço de ouro, Edith Bouvier Beale, mais conhecida como Little Edie, teve uma educação privilegiada e uma infância feliz ao lado dos pais e dos irmãos. Seus pais se separaram quando ela tinha 14 anos, fazendo com que o conforto e a prosperidade de antes diminuísse consideravelmente. Muito católica, Edie nunca chegou a considerar como válido o rompimento de seus pais, mesmo após a oficialização, pois seguia as leis da Igreja, que não reconhece o divórcio entre um casal como válido.


Muito bonita, Edith começou a trabalhar como modelo em Nova York, chegando a ser contratada por lojas importantes, como a Macy's, e participando de desfiles. Sonhando com a fama e visando conseguir um bom casamento, Little Edie mudou-se de seu antiquado apartamento na cidade, decorado com objetos antigos de família, para o glamouroso Barbizon Hotel, um local onde moças solteiras e bem educadas costumavam hospedar-se. Ela alega que recebeu propostas de casamento de homens importantes como Joe Kennedy Jr, Howard Hughes e J. Paul Getty. Segundo seus diários, ela também teve um relacionamento com Julius Albert Krug, um senador americano casado.


Após alguns anos em Nova York, Edith começou a ficar sem dinheiro e sem muitas opções de trabalho, e com os constantes apelos de sua mãe, ela decidiu retornar para sua antiga casa, Grey Gardens. 

A convivência em Grey Gardens


Little Edie voltou para casa em 1952, encontrando sua mãe doente e bastante solitária, além da situação financeira precária. A propriedade já não era mais a mesma e muito menos o patrimônio da família, mas as duas continuavam a viver como antes, se recusando a vender a mansão ou mesmo suas jóias e objetos de valor, ou mesmo arrumar alguma fonte de renda. Ano após ano, cada vez mais isoladas da sociedade e com menos condições financeiras, a situação se agravou em 1971, quando as autoridades descobriram a situação caótica em que a casa se encontrava e elas foram ameaçadas de despejo. 


Jackie Kennedy Onassis e sua irmã Lee Radziwill, sobrinhas de Big Edie, estavam produzindo um documentário sobre suas vidas e acharam que seria interessante falar sobre a infância em East Hampton. Com a equipe de filmagens no local, as condições precárias e insalubres de suas familiares rapidamente foram descobertas e vieram a público. Com a casa em ruínas, rodeada de lixo e invadida por alguns animais, como gatos e guaxinins, as duas foram notificadas pelas autoridades que seriam despejadas e a propriedade seria demolida, caso não fosse limpa em breve. Com o escândalo nacional de duas pessoas da família em total miséria e decadência, Jackie, ex-primeira dama e casada com um dos homens mais ricos do mundo, foi obrigada a intervir diante da opinião pública, custeando a limpeza e algumas melhorias para o lugar. 




Reportagens da época

O documentário


Com a história das duas em todos os jornais, os irmãos Maysles logo enxergaram um grande potencial para um excelente documentário, mostrando o cotidiano de mãe e filha vivendo em uma mansão decadente. Diferente de um documentário tradicional, com um narrador e uma história sendo contada desde o começo até o fim, as filmagens são bastante intimistas, quase como um reality show. O filme mostra o dia a dia de mãe e filha basicamente isoladas na casa, revelando uma relação complicada de muito amor e cumplicidade, mas também de brigas, provocações e ressentimentos.


Para qualquer pessoa normal nos dias de hoje, provavelmente o mais sensato seria vender a mansão, comprar uma casa menor e de mais fácil manutenção, e arrumar um emprego para poder se sustentar, mas para as duas isso não era uma opção. Vivendo em um mundo de aparências e em uma época onde poucas mulheres trabalhavam, elas preferiram se agarrar ao passado e viver cercadas das lembranças de seus tempos de glória, cada uma com uma forma de enganar a si mesma. A mãe, com as memórias de seus dias como cantora, achando que sua voz continuava quase a mesma, e a filha, com esperanças no futuro, sonhando com uma vida em Nova York e um marido (libriano, de preferência), sempre se recordando do sucesso de sua juventude, provavelmente um pouco aumentado em sua cabeça. Claramente as duas desenvolveram graves problemas psicológicos ao longo dos anos, enxergando a realidade de uma maneira completamente diferente do que era. Não sei se isso faz delas loucas, como muitos as consideram, mas fica claro que a educação conservadora, o fracasso dos planos de vida e os anos de reclusão fizeram de ambas pessoas um tanto peculiares, a ponto de viver em uma casa caindo aos pedaços, em meio ao lixo e alimentando animais que invadiam e destruíam a casa. No entanto, é quase impossível deixar de gostar das duas mulheres cujas quais basicamente convivemos ao assistir o documentário e admirar também suas qualidades.


Big Edie morreu de pneumonia em 1977 e Little Edie permaneceu ainda dois anos morando em Grey Gardens, vendendo a casa em 1979. Em 1978, aos 60 anos, Edie tentou iniciar uma carreira artística, fazendo 8 shows em Reno Sweeney, um clube de Manhattan, mas as críticas não foram positivas. Ela mudou-se para Nova York e posteriormente para a Flórida, Montreal e Califórnia, retornando para a Flórida em 1997, onde viveu tranquilamente escrevendo poesia e se correspondendo com seus fãs, além de nadar todos os dias. Edie morreu em 2002, após um suposto ataque cardíaco ou AVC. Ela foi encontrada após 5 dias, depois da ligação de uma fã preocupada que não conseguiu encontra-la ao telefonar.

Edie em 1997, via

Em 2009, o documentário virou um filme feito para a televisão e estrelado pelas atrizes Jessica Lange e Drew Barrymore. O longa recebeu 17 indicações ao Emmy. Jessica Lange venceu o Emmy e Drew Barrymore o Globo de Ouro por suas atuações, com ambas sendo indicadas como Melhor Atriz nas duas premiações. (dvd do filme)



Três anos antes, o documentário havia sido adaptado para o teatro, num musical protagonizado por Christine Ebersole e Mary Louise Wilson. Foi a primeira produção da Broadway baseada em um documentário.


Little Edie também se tornou um ícone da moda, influenciando estilistas como John Galliano e indo parar nas passarelas.



O documentário foi lançado recentemente pela distribuidora Obras-Primas do Cinema, contendo ainda diversas entrevistas. Clique aqui para comprar.


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