Havaí (Hawaii, 1966)


Uma das maiores bilheterias de 1966, o épico Havaí, baseado na obra de mesmo nome escrita por James A Michener, aborda 3 temas diferentes durante seus 161 minutos de duração. Demonstrando um pouco do processo de colonização deste paraíso rico em histórias e diversidades, o filme foca nas relações entre os nativos e os homens brancos e tementes a Deus, enviados para trazer civilização e fé para um bando de selvagens, segundo a visão que tinham na época. O que nos leva ao segundo assunto que salta aos olhos durante todo o desenrolar da trama, que é o fanatismo religioso e o total desrespeito às crenças de outros povos. E, em meio a tudo isso, acompanhamos o casamento amoroso porém seco, dos protagonistas, que em determinado momento se torna um triângulo amoroso.


Mas calma! Voltemos ao início. O filme começa com o poderoso discurso do Príncipe Keoki, que narra a origem mítica de seu povo para alunos e profissionais da renomada universidade de Yale, clamando por ajuda para catequizar os nativos de sua ilha. Comovido, o Reverendo Abner Hale se voluntaria para morar permanentemente no local e ajudar seus habitantes. Sua candidatura é aceita, com a condição que ele arranje uma boa moça e se case antes de viajar para o Havaí. É assim que ele é apresentado a Jerusha Bromley, uma jovem de família rica que havia entrado em depressão após ser abandonada por um marinheiro por quem se apaixonou dois anos antes. De origem humilde, Abner imediatamente se apaixona pela bela e doce Jerusha, mas se considera indigno da moça por não ser de sua classe social. Ela, no entanto, acaba se afeiçoando ao seu jeito atrapalhado e gentil e encoraja seu pedido de casamento.


Já casados, os dois chegam ao Havaí, onde se deparam com os hábitos locais, como a nudez dos nativos, o culto a outros deuses e o casamento entre membros de uma mesma família. Jerusha trata a todos com respeito e delicadeza e logo ganha a simpatia da Aliʻi Nui, Malama Kanakoa, a rainha do povo da ilha. Abner reage de maneira oposta, deixando claro sua desaprovação e se comportando com arrogância e superioridade.


Estabelecidos, o casal vai aos poucos conquistando a confiança dos moradores e fazendo mudanças, como ensinar a língua inglesa e lições sobre religiosidade, além de modificar a vestimenta, que antes era mínima, para roupas típicas dos brancos. Devido a localização da ilha, muitos navios baleeiros acabam atracando no porto, fazendo com que as moças nativas alegre e inocentemente nadem até eles para recepciona-los, Abner e Jerusha conseguem convencer Malama Kanakoa dos malefícios deste hábito, já que muitos dos homens em questão acabavam transmitindo doenças para as moças ou engravidando-as. E é em um destes barcos que se encontra o mulherengo Capitão Rafer Hoxworth, o homem que anos antes havia namorado Jerusha. Embora ame seu marido, a paixão por Rafer se reacende com o reencontro, principalmente pela frieza de seu casamento, já que Abner considera pecado demonstrar mais amor por sua esposa do que a Deus.


Com o passar dos anos, Abner, que à princípio era um bom homem, começa a mostra-se até mesmo cruel devido ao seu fanatismo religioso. A crença de que tudo é considerado pecado e a dureza com que lida com determinadas situações durante sua jornada, traz mais sofrimento aos que o cercam do que o bem, que é o que ele deveria estar fazendo como um religioso. Assim, o jovem atrapalhado e bem-intencionado do início do longa, passa a ser um homem rígido e vingativo, o que o afasta das pessoas que mais o admiram, incluindo sua própria esposa. É apenas após seu próprio inferno pessoal, que ele se da conta do quanto havia se distanciado de sua essência e começa sua redenção.


O filme possui uma história riquíssima e repleta de acontecimentos, mas na tentativa de não dar muitos detalhes sobre o enredo para não estragar a surpresa de quem ainda não viu, muitas partes interessantes acabam não sendo abordadas. O fanatismo e a intolerância religiosa são duas coisas que me chamaram bastante atenção durante todo o desenrolar do longa. Obviamente, algumas práticas absurdas, como o assassinato de bebês que nascessem com algum tipo de deficiência, precisavam ser abolidas. No entanto, a maneira como a cultura branca e cristã era literalmente imposta aos nativos da ilha, desrespeitando completamente as crenças do povo, e forma repleta de soberba com a qual religiosos, que deveriam tratar todos como iguais, lidavam com as pessoas da ilha, considerando-os apenas como selvagens que deveriam ser domesticados, é algo que nos faz refletir sobre o que é de fato seguir aos palavras de Deus e amar ao próximo.


Curiosidades sobre o filme

Julie Andrews é a estrela do épico ao lado do sueco Max von Sydow, famoso até então por seus trabalhos sob a direção de Ingmar Bergman. Richard Harris completa o trio principal. O elenco, porém, teve diversas outras opções antes de ser oficialmente fechado. Audrey Hepburn e Alec Guinness haviam originalmente sido pensados como protagonistas, assim como Rock Hudson para o papel do sedutor Rafer. Charlton Haeston também recebeu ofertas, tanto para interpretar Abner quanto Rafer, mas recusou ambas as propostas. Porém, o ator pode ser visto na sequência do filme, intitulada O Senhor das Ilhas (The Hawaiians, 1970), onde atua com Geraldine Chaplin.


Malama Kanakoa é sem duvida uma das personagens mais interessantes da história, Sua intérprete, Jocelyne LaGarde, conseguiu o feito inédito de ser indicada ao Oscar por uma única atuação. Ela nunca havia trabalhado como atriz antes do filme e nem voltou a trabalhar posteriormente. Nascida na polinésia francesa, ela sequer falava inglês quando foi escolhida devido a sua semelhança com a Rainha Ka'ahumanu, personalidade real que serviu de inspiração para o papel. 

Ilustração da Rainha Ka'ahumanu

Como participações ilustres no longa temos o grande Gene Hackman, ainda em início de carreira, interpretando o Dr. John Whipple. Bette Midler foi outra que fez uma ponta no filme, mas tão pequena que sequer notei sua presença. Mas foi graças ao cachê que recebeu, que a atriz e cantora conseguiu dinheiro para viajar para Nova York, onde acabou tendo seu talento reconhecido. E, por fim, os dois filhos de Max Von Sydow, Henrik von Sydow e Clas von Sydow, interpretam o filho do ator na película, com idades diferentes.


O dvd do filme acaba de ser lançado pela distribuidora Obras-Primas do Cinema e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. Para comprar, clique aqui.

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