A Face Oculta (One Eyed Jacks, 1961)


Quem conhece um pouco sobre a trajetória de Marlon Brando fora das telas sabe que o ator tinha um gênio um tanto difícil. Assim sendo, não é surpresa alguma que os bastidores de uma produção estrelada e dirigida pelo astro tenha ares tão dramáticos e cheios de reviravoltas quanto o próprio enredo do longa.

Marlon Brando dando instruções nos bastidores, caracterizado como o personagem

Principal nome da nova geração de atores surgida nos anos 50, Marlon Brando foi um dos maiores responsáveis por difundir 'o método', como era chamada a adaptação do Sistema Stanislavski feita pelo Actors Studio de Nova York. Ao contrário da velha guarda do cinema, de astros como Humphrey Bogart e Laurence Olivier, com suas atuações mais contidas e 'engessadas', baseadas apenas no poder de cada ator de fingir estar em uma determinada situação, o método significava uma revolução na maneira de compor um papel. Ao invés de forçar emoções enquanto as câmeras registravam tudo, os intérpretes agora precisavam ir além. Era necessário sentir o que o personagem sentia, fazer o que ele fazia e viver o que ele vivia, também fora das telas, até que o ator mergulhasse tão fundo que desse a impressão ao público de que ele de fato era aquele personagem. O realismo era a chave de tudo.

Com seu Oscar em 1955

Absolutamente consagrado em sua carreira, tendo vencido o Oscar por seu desempenho em Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954), sendo inclusive o grande ídolo de ninguém menos do que James Dean, Marlon Brando possuía prestígio o suficiente para mandar e desmandar nos filmes que escolhesse participar. Era ainda o ano de 1957 quando o roteiro de A Face Oculta começou a ser escrito. Baseado no livro The Authentic Death of Hendry Jones, escrito por Charles Neider em 1956, o script passou pelas mãos de Rod Serling, Sam Peckinpah, Calder Willingham e Guy Trosper, além de interferências do próprio Brando. A versão final pouco tinha a ver com o romance escrito por Neider, que contava a história do célebre pistoleiro Billy the Kid, misturando fatos reais e ficção. Para a direção do longa, Stanley Kubrick havia sido contratado, com o total apoio de Brando.

Stanley Kubrick e Marlon Brando

Logo o clima amistoso de mútua admiração entre Kubrick e Brando se desfez, dando lugar a inúmeros atritos, que culminaram na demissão do diretor. Dentre as muitas diferenças, estavam a escolha do intérprete do antagonista Dad Longworth, que para Kubrick seria perfeito para Spencer Tracy ou Henry Fonda, enquanto Marlon Brando e sua produtora já haviam assinado com Karl Malden, amigo de longa data do ator, desde Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire), ainda no teatro. Kubrick chegou a declarar alguns anos depois, que Brando só o contratou como um disfarce para o estúdio, pois ele próprio queria desempenhar a função de diretor, fazendo de tudo para livrar-se dele. No entanto, Brando alegou que foi basicamente obrigado a assumir a dupla função pois nenhum diretor convidado aceitou participar do projeto.

Karl Malden e Marlon Brando brincando nos bastidores

Ao contrário de sua desenvoltura como ator, na direção Brando mostrou-se extremamente inseguro e inexperiente, necessitando de instruções até mesmo nas coisas mais elementares. Para desespero da Paramount, as filmagens iniciadas em 1958 demoraram muito mais do que o previsto, sendo finalizadas apenas em 1960, com 6 vezes mais material do que o necessário. A versão final possuía cerca de 5 horas no total, exigindo que diversas cenas fossem excluídas. Ainda assim, podemos perceber que a duração do longa é consideravelmente maior do que a de outros faroestes. Outro fator pouco comum em comparação a outras produções do gênero, é ter a locação próxima ao mar. Marlon Brando ficava horas e horas contemplando o oceano em busca de imagens perfeitas para serem usadas. 


A história gira em torno de Rio (Marlon Brando), um assaltante de bancos que tem como mentor e melhor amigo Dad Longworth (Karl Malden). Após uma emboscada, os dois se veem encurralados pela polícia e tendo apenas um velho cavalo como meio de transporte. Fica decidido em comum acordo que Dad iria até a cidade mais próxima conseguir dois cavalos novos e fortes para a fuga, enquanto Rio ficaria para trás à espera do amigo. Com a posse do dinheiro que roubaram, Dad percebe que para ele não existe nenhuma vantagem em voltar para salvar Rio e arriscar seu pescoço, já que ele poderia desfrutar sozinho de toda a fortuna e começar uma nova vida em outro lugar.


Sem nenhuma chance, Rio acaba sendo preso e constatando a traição do homem que mais admirava na vida. Passados cinco anos, ele consegue fugir da prisão, com o desejo de vingança mais intenso do que nunca. Cego pelo ódio, ele descobre que seu algoz não será um alvo tão fácil, pois tornou-se um membro respeitável de uma pequena cidade, onde é o xerife e possui uma família, formada por sua esposa e enteada. Impedido de confronta-lo diretamente, Rio executa um plano B, fingindo estar apenas visitando um velho amigo, sem nenhuma mágoa, dizendo ter conseguido escapar da polícia anos antes, portanto sem ter sido prejudicado por Dad. A jovem e inocente Louisa é considerada por seu rival como sua própria filha, fato que logo faz com que Rio perceba que tem uma poderosa arma contra ele, já que a moça demonstra um claro interesse pelo novo convidado. Após seduzi-la e deixar claro que queria apenas vingança, Rio planeja assaltar o banco da cidade com seus comparsas e matar o xerife, mas a estratégia acaba indo por água abaixo. Deduzindo as reais intenções do antigo parceiro, Dad toma suas providências para livra-se de uma vez por todas da ameaça, fazendo com que Rio fique com ainda mais sede de vingança, ao mesmo tempo que se descobre apaixonado por Louisa.


Marlon Brando odiou a versão final da obra que, segundo sua concepção, deveria terminar como uma tragédia, com a morte tanto de Dad quanto de Rio no embate final, além de vitimar Louisa, atingida por um tiro acidental disparado pelo vilão. Brando, alias, não queria que as definições de mocinho e bandido fossem tão claras quanto nos outros filmes do gênero. Em uma das cenas, que acabou sendo cortada, Rio deveria se embebedar e estuprar uma jovem chinesa da aldeia em que estava vivendo. Lembra do método, citado acima? Brando acreditava que não era possível fingir uma embriaguez de maneira convincente, por isso resolveu se embebedar de verdade para dar mais realismo. Mas o ator estava tão alcoolizado durante a filmagem que não conseguia realizar a cena como deveria. Após semanas repetindo o mesmo esquema, bebendo e estragando todas as tomadas, ficou decidido que a cena ficaria de fora do filme. O trágico desfecho idealizado por Brando também não agradou ao estúdio e um final feliz, com a morte  apenas de Dad e a promessa de que Rio e Louisa viveriam felizes para sempre acabou sendo filmada, para a decepção do protagonista e diretor, que prometeu jamais repetir a dose atrás das câmeras novamente. 

Cena deletada

Além de Marlon e Karl Malden, o western conta com a presença de Katy Jurado, antiga amante de Brando, e Ben Johnson, ator que havia sido campeão de rodeio e sempre dava um toque de autenticidade aos faroestes que participava, além da atriz mexicana Pina Pellicer. Quase desconhecida nos dias de hoje, ela teve uma história bastante triste, suicidando-se com apenas 30 anos, fato que muitos colocam na conta de Brando. Durante as filmagens, o astro, que tinha preferência por mulheres consideradas exóticas aos olhos americanos, como latinas e orientais, teve um relacionamento amoroso com Pina, que segundo consta, estava perdidamente apaixonada e pensava ser correspondida. Com o final das gravações, veio também o término do romance entre os dois, para a tristeza da moça, que teve que acompanhar pelas revistas de fofocas os casamentos e inúmeros casos do amado. Embora o suicídio tenha ocorrido em 1964, alguns anos após o final do namoro, muitos acreditam que Brando tenha sido um dos culpados pelo estado depressivo da jovem. 

Marlon Brando comemorando seu aniversário ao lado de Pina Pellicer

Após a série de polêmicas envolvendo a produção e uma espera de anos, que causou um enorme gasto para os cofres da Paramount, o filme foi um grande fracasso de público e considerado pelos críticos da época uma obra fraca. No entanto, com o passar dos anos, o longa foi tendo seu valor reconhecido, sendo considerado nos dias de hoje um dos grandes clássicos do gênero, figurando sempre em listas de 'filmes obrigatórios'. De fato, embora seja desnecessariamente grande demais, A Face Oculta é um grande faroeste, com elementos pouco comuns, sem deixar de lado a trama de vingança que tanto empolga o público. É sempre maravilhoso ver Marlon Brando em ação, mas o destaque é o sempre competente Karl Malden, que pode não ter o status de astro, mas é um ator que invariavelmente cumpre seu papel com perfeição.

Se você também quiser conferir o filme, ele acaba de ser lançado em dvd pela Classicline e é bem fácil de ser encontrado, estando disponível em todas as lojas do ramo, incluindo o próprio site da distribuidora.

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