terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Vale a pena assistir 'Blonde' (2022) ?

 


Confesso que não pretendia fazer uma postagem sobre o filme, por ter perdido o timing, já que a estréia ocorreu em setembro de 2022. No entanto, com a chegada da temporada de premiações, 'Blonde' tem sido novamente citado, positiva ou negativamente. Por isso, achei que valeria fazer uma avaliação rápida sobre a produção.


Um pouco sobre o filme


Estrelado por Ana de Armas e dirigido por Andrew Dominik, o longa da Netflix é um relato ficcional da conturbada vida de um dos maiores ícones da cultura pop mundial. Baseado no best-seller de mesmo nome da escritora Joyce Carol Oates publicado em 2000, a produção mistura fatos reais com situações romanceadas, com o objetivo de mostrar a mulher por trás do mito Marilyn Monroe. 


Pontos positivos

O principal ponto positivo do longa é, sem dúvida alguma, a atuação de Ana de Armas. A atriz, nascida em Cuba, não é nem de longe a escolha mais óbvia para interpretar Marilyn. Sua beleza morena e latina é quase oposta à figura loira tipicamente americana que tornou-se um símbolo da Hollywood dos anos 50. No entanto, o trabalho de caracterização, incluindo cabelo, maquiagem e figurinos, ficou impecável. Em muitas cenas, as duas mulheres, incrivelmente, ficam bastante parecidas. Mas é a total entrega de Ana à personagem que realmente faz com que o filme ganhe um pouco de respeito. Ela, inclusive, conseguiu escapar da temida indicação ao Framboesa de Ouro, das quais 'Blonde' foi o filme recordista. Ao contrário disso, seu desempenho foi reconhecido com uma indicação ao Oscar. 

Outro destaque da produção, é justamente a recriação dos figurinos icônicos de Monroe, desde sua época de modelo, passando por fotografias famosas, até as roupas utilizadas em seus próprios trabalhos nas telas. 


Pontos negativos

Na minha visão, a direção de Andrew Dominik é pretensiosa. O longa, que tem 2 horas e 46 minutos de maneira completamente desnecessária, torna-se cansativo não por sua duração, e sim pelas escolhas do diretor. Por ser um filme biográfico - ainda que cheio de elementos ficcionais - seria perfeitamente compreensível ter um tempo grande de tela, para que fossem abordados diversos temas de uma vida intensa e conturbada. Entretanto, o que assistimos são recortes avulsos, com passagens de tempo mal feitas, personagens que surgem sem muita explicação enquanto outros desaparecem sem esclarecimento algum. Dominik, que além de dirigir também foi o responsável pelo roteiro, tentou utilizar cenas fortes, como o polêmico encontro com Kennedy ou a pré-estréia em que Marilyn tem a sensação de ser devorada por homens que a observam, para chocar o espectador e tentar, de alguma forma, trazer o desconforto que a própria atriz sentia por sua exploração na indústria. Ainda assim, o filme tem cenas que beiram o ridículo, em especial as conversas imaginárias da protagonista com os fetos em sua barriga. 

Em resumo, o filme busca tanto o diferente que acaba saindo completamente dos trilhos. A preferência por estender cenas sem muita relevância e fazer apenas uma rápida passagem por pontos que talvez fossem ser bem mais interessantes foi o que mais me incomodou. Não vou entrar no mérito do excesso de nudez, que de fato ocorreu, mas que já seria uma outra discussão. Simplificando totalmente, é um filme ruim. Ainda que não fosse sobre a Marilyn, ainda que não tivesse elementos biográficos, o roteiro e a direção são simplesmente fracos. Você sequer consegue resumir o enredo, porque a sensação é que o roteiro ficou em segundo plano, se escorando nas polêmicas, na atuação da protagonista e na própria imagem da Marilyn, que por si só já vende e já atrai o público. 

Fica um sentimento de que seria muito mais digno ter pego todo o investimento da produção e o empenho de atuação da Ana de Armas para fazer um filme ou uma série realmente biográfica sobre a Marilyn, ao invés de pegar algo que de certa forma não acrescenta em muita coisa.


Vale a pena ver?

É claro! Afinal, o que é ruim pra mim pode ser ótimo pra você e é sempre válido tirar suas próprias conclusões sobre tudo. Para os fãs da Marilyn, a experiência pode ser um pouco frustrante. Porém, para alguém que não sabe muito sobre ela, pode ser uma porta a ser aberta para pesquisas mais profundas sobre a atriz e sobre seus filmes. 

E se você é fã ou deseja saber mais sobre a Marilyn, vou deixar algumas matérias do blog que possam te interessar:




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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A Cicatriz (Hollow Triumph, 1948), um filme noir subestimado

 


Dirigido por Steve Sekely e com Paul Henreid e Joan Bennett nos papéis principais, 'A Cicatriz' (Hollow Triumph ou The Scar, 1948) é um filme noir baseado na obra de mesmo nome do escritor Murray Forbes. 

Assista o filme gratuitamente no Youtube: Clique aqui

O cinema noir

Com seu ápice na década de 40, o subgênero noir é um derivado do suspense policial, com forte influência do Expressionismo Alemão. Um dos destaques dos filmes desta categoria é o fato de muitas vezes nos depararmos com protagonistas de caráter duvidoso. 

É claro que não são raros os longas noir com os tradicionais mocinhos tendo um crime para solucionar ou um vilão para combater. Entretanto, definitivamente, alguns dos maiores clássicos do cinema noir são permeados de crimes, assassinatos e traições cometidos pelos próprios personagens principais da trama. Exemplos não faltam, como 'Pacto de Sangue' (Double Indemnity, 1944), 'O Destino Bate à Sua Porta' (The Postman Always Rings Twice, 1946) ou 'O Mensageiro do Diabo' (The Night of The Hunter, 1955).

A história do protagonista vilão


Enquanto em alguns filmes temos protagonistas dúbios ou mapipuláveis, aqui não resta dúvida alguma de que seguiremos os passos de um criminoso frio e calculista. Logo nas primeiras cenas, acompanhamos Johnny Müller (Paul Henreid) sendo libertado da cadeira e tendo a oportunidade de um trabalho honesto para recomeçar a vida. A oferta é prontamente recusada, já que ele tem em mente planos melhores, como assaltar o cassino de um gângster com seu grupo de comparsas. Mesmo avisado sobre os perigos de uma retaliação caso fossem pegos, Johnny insiste na perfeição de seu plano e convence os amigos a seguirem em frente. Obviamente, o assalto dá errado e, embora consiga fugir, Johnny sabe que não demorará muito para ser encontrado e morto.

Assim, ele precisa não só fugir da cidade como se manter invisível para sobreviver. Após aceitar o enfadonho emprego que haviam lhe oferecido ao ser solto da prisão, ele começa a viver dia após dia a rotina de um cidadão comum. Mas sua sorte muda quando ele descobre, totalmente ao acaso, que existe um homem aparentemente idêntico a ele, com apenas uma diferença: uma cicatriz no rosto. 

Curioso, ele vai atrás de seu suposto sósia, o psiquiatra Victor Bartok, se dando conta de que a semelhança entre ambos não era apenas uma coincidência, era também uma oportunidade. Disposto a tudo, inclusive a matar, Johnny começa a preparar seus planos e estudar os costumes do médico, com o propósito de assassina-lo e tomar o seu lugar. 

Pontos positivos e negativos 

Aqui é a parte onde vou colocar um pouco sobre a minha visão pessoal sobre o filme. 


O filme claramente não tem nenhuma pretensão de ser uma obra-prima. Sendo assim, visando o entretenimento, é um filme noir bem interessante. Com pouco tempo de duração, cerca de 83 minutos, o enredo prende a atenção no decorrer da trama e o final é bastante satisfatório. Apesar disso, não posso deixar de destacar o roteiro repleto de situações convenientes, como o própria sósia que surge do nada, bem na cidade onde o protagonista foi parar, assim como outros acontecimentos que poderiam ter sido melhor trabalhados. Existe uma certa quantidade de circunstâncias oportunas que facilitam as vilanias do personagem, que acabam soando como furos no roteiro. No desfecho, entretanto, há um equilíbrio instigante que acaba deixando a história mais 'redonda' e com uma conclusão bem adequada e até surpreendente. 

Um pouco sobre os atores principais


Embora os nomes de Paul Henreid e Joan Bennett venham lado a lado na abertura, o ator é o protagonista absoluto do filme, com muito mais tempo de tela do que os demais. Além de atuar, ele também foi produtor do longa, já que se sentiu atraído pela oportunidade de interpretar um vilão pela primeira vez. Seus trabalhos mais conhecidos são 'A Estranha Passageira' (Now, Voyager, 1942) e 'Casablanca' (1942).

 Já Joan Bennett, apesar de bastante versátil, é basicamente uma rainha dos filmes noir, sendo a femme fatale de dois dos maiores clássicos do gênero: 'Um Retrato de Mulher' (The Woman in the Window, 1944) e 'Almas Perversas' (Scarlet Street, 1945).

Leslie Brooks não era uma atriz do primeiro escalão em Hollywood, atuando em papéis pequenos ou filmes de baixo orçamento. Ela pode ser vista em clássicos como 'Modelos' (Cover Girl, 1944), ao lado de Rita Hayworth, e em 'A Loira Tenebrosa' (Blonde Ice, 1948), onde teve o papel principal.

Ficha técnica

Direção: Steve Sekely
Roteiro: Daniel Fuchs, baseado na obra de Murray Forbes
Gênero: Suspense, policial, Noir
Duração: 1 hora e 23 minutos
País: EUA
Cor: Preto e branco


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