sexta-feira, 12 de março de 2021

Três vezes em que estrelas foram 'canceladas' por causa de seus cabelos


Na sociedade, os cabelos são considerados a moldura do rosto. A indústria de cosméticos especializados oferece uma ampla lista de produtos de tratamento e coloração para que mulheres possam se sentir mais confiantes com suas madeixas. Elas, por sua vez, podem variar em cortes, pinturas e penteados de acordo com o gosto pessoal, a moda atual ou a personalidade de cada uma. 


No cinema, os cabelos tem uma importância ainda maior, já que a composição de cada personagem exige uma caracterização diferente para auxiliar o processo de criação da representação através do elemento visual. No entanto, muitas vezes o público gosta tanto do que vê nas telas que os cabelos se tornam verdadeiras marcas registradas de algumas estrelas, como o corte 'La Garçonne' de Louise Brooks, o loiro platinado de Jean Harlow ou o estilo 'pantera' de Farrah Fawcett que marcou a década de 70. 

Louise Brooks, Jean Harlow e Farrah Fawcett com seus icônicos penteados


Todavia, em alguns casos, o sucesso acaba se voltando contra os astros e os tornando reféns de suas próprias imagens. Diversas vezes, carreiras foram arruinadas por escândalos em tabloides ou pelo menor sinal de envelhecimento, que ia de encontro à perfeição e ao glamour inalcançáveis que eram cuidadosamente construídos pelos estúdios para encantar o grande público. Em algumas situações, como as que vamos ver abaixo, foram os cabelos os vilões para as atrizes que, assim como o personagem bíblico Sansão, perderam sua força ao corta-los:


Mary Pickford

Mary Pickford no auge da fama e, ao lado, durante a cerimônia do Oscar, 1929

A primeira 'Queridinha da América, Mary Pickford era dona de longos cachos dourados que lhe conferiam um ar ingênuo e angelical. Indo na contramão do estilo 'vamp' de contemporâneas como Theda Bara, a atriz iniciou sua trajetória nas telas em curtas-metragens em 1909, especializando-se em interpretar ao longo dos anos personagens muito mais novas do que realmente era, como nos clássicos 'The Little Princess' (1917) e Pollyanna (1920), com muitos de seus papéis sendo refilmados anos depois por Shirley Temple. Mary reinou absoluta durante as décadas de 1910 e 1920, sendo considerada a estrela mais popular do cinema mudo americano. Após a morte de sua mãe e já cansada de interpretar personagens pobres e infantilizadas ao longo de mais de duas décadas, ela resolveu dar uma repaginada não só na carreira como também no visual, cortando suas icônicas madeixas no estilo 'Bob', muito em voga na época, em 1928.

A notícia do corte de cabelo da atriz chegou a aparecer na primeira página do New York Times

Apesar de ser contra a introdução do som no cinema, a atriz estrelou em 1929 seu primeiro longa falado, 'Coquete' (Coquette), onde aparecia como uma jovem fútil e glamourosa do final dos anos 20. Aos 37 anos, ela continuava interpretando personagens bem mas novas, só que agora seus cachos, que outrora foram a representação física da castidade e da inocência feminina, deram lugar a cabelos curtos acompanhados de roupas sofisticadas. Embora tenha se tornado a segunda vencedora do Oscar de Melhor Atriz por seu desempenho, os fãs não aprovaram a nova fase da 'pequena Mary', que se mostrava adulta até demais. Seus próximos trabalhos, 'A Mulher Domada' (Taming of the Shrew, 1929),
'Forever Yours' (1930) e 'Kiki' (1931) mostraram que sua popularidade estava decaindo e que seus tempos de glória estavam ficando para trás. Após a estreia de 'Segredos' (Secrets, 1933) ela decidiu se aposentar definitivamente. Em 1976, foi congratulada com o Oscar Honorário por sua contribuição ao cinema. Faleceu em 1979, tendo passado seus últimos anos vivendo reclusa em sua mansão.

Veronica Lake


Se as comédias malucas, ou screwball comedy em inglês, deram o tom da década de 30, pode-se dizer que os filmes noir foram o ponto alto dos anos 40. Com a popularidade das 'femme fatale', encontradas neste subgênero, a sensualidade e o ar de mistério começaram a ser características procuradas nas aspirantes à fama em Hollywood. Quando uma mecha de cabelo loiro insistia em cair sobre um dos olhos da iniciante Veronica Lake durante um teste para o longa de guerra 'Revoada das Águias' (I Wanted Wings, 1941), o produtor Arthur Hornblow soube imediatamente que havia encontrado uma nova estrela. O penteado, que ficou conhecido como 'peek a boo' (que significa algo como 'espreitar'), tornou-se uma verdadeira febre entre o público feminino da época e impulsionou a carreira de Lake, que passou de figurante à protagonista. 

A atriz fotografada para a campanha de conscientização do governo americano

O sucesso foi tamanho que começou a trazer uma enorme dor de cabeça para o governo americano. Em meio à Segunda Guerra, sem a mão de obra masculina para operar as fábricas, coube às mulheres ocupar os lugares deixados pelos homens no mercado de trabalho. Imitada por milhares de fãs, que começaram a utilizar as madeixas soltas caindo sobre o olho, Veronica Lake foi chamada pelas autoridades norte-americanas em 1943 para fazer uma propaganda conscientizando as trabalhadoras, após diversos acidentes envolvendo operárias começarem a acontecer, já que muitas mulheres acabavam ficando com os cabelos presos às máquinas. A atriz prontamente atendeu ao chamado, sendo fotografada com os cabelos sendo enrolados por uma furadeira, além de ensinar penteados seguros em uma propaganda (veja aqui). Ela própria passou a utilizar os cabelos presos para criar uma nova imagem e ajudar a influenciar efetivamente na causa proposta pelo governo. No entanto, apesar de sua boa ação, o público não aprovou a mudança e sua carreira começou a enfraquecer. Apesar de continuar trabalhando ao longo da década e de ter retornado ao seu visual clássico, seu único sucesso após a propaganda foi 'A Dália Negra' (The Blue Dahlia, 1946). Seu último trabalho no cinema foi Flesh Feast (1970), um filme de terror de baixo orçamento. Faleceu três anos depois, aos 50 anos, de hepatite.

Rita Hayworth


Considerada um dos maiores 'produtos' do star system de Hollywood, Margarita Cansino precisou fazer uma transformação completa para se tornar uma estrela. De origem hispânica, a jovem dançarina foi submetida a cirurgias plásticas no nariz e no queixo, além de um doloroso procedimento para aumentar a testa. Os cabelos, agora longos, ondulados e ruivos foram o ornamento perfeito para sua versão, repaginada e europeizada. Assim, Margarita deixou de existir, dando lugar a Rita Hayworth. Seja seduzindo Tyrone Power em 'Sangue e Areia' (Blood and Sand, 1941), seja dançando com Gene Kelly e Fred Astaire nos musicais que a tornaram a rainha da Columbia, seu nome tornava-se cada vez mais popular, atingindo o ápice da fama ao interpretar 'Gilda' em 1946. Com a estreia do longa, onde boatos diziam que a beldade aparecia completamente nua e atraiam multidões às salas de cinema, as madeixas avermelhadas da atriz viraram sinônimo de glamour e sensualidade, tornando-a a ruiva mais famosa do cinema.

Rita com o então marido Orson Welles vendo o resultado de sua transformação

Prestes a perder sua identidade pela segunda vez, já que todos ao seu redor pareciam agora associa-la à Gilda, a atriz concordou com seu então marido, o ator e diretor Orson Welles, em fazer uma transformação radical para o longa 'A Dama de Shanghai' (The Lady from Shanghai , 1947), onde interpretaria novamente uma femme fatale. Para se desvencilhar completamente de sua personagem mais aclamada, Hayworth teve sua cabeleira ruiva substituída por madeixas curtas e loiras, para total desespero de Harry Cohn, chefe da Columbia. Temendo que sua maior estrela tivesse sua carreira arruinada, ele exigiu que Welles filmasse mais cenas com closes no rosto de Rita, para tentar amenizar o estrago. Coincidência ou não, acompanhando as previsões de Cohn, o filme foi um retumbante fracasso nas bilheterias. Ao contrário de Pickford e Lake, a atriz não chegou a amargar um declínio profissional, voltando ao ruivo e ao sucesso como a cigana Carmen em 'Os Amores de Carmen' (The Loves of Carmen, 1948). No entanto, após sua saída da Columbia, em 1947, a atriz começou a ter menos destaque nas telas, aposentando-se em 1972, após mais de 60 filmes. Um dos primeiros casos notórios de Alzheimer, faleceu aos 68 anos, em 1987.

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