O inusitado triângulo amoroso entre Charlie Chaplin, JD Salinger e Oona O'Neill


Não é exagero falar que Charlie Chaplin foi o maior astro de sua geração, sendo considerado até hoje um dos grandes gênios da sétima arte. Durante o auge do cinema mudo, chegando a estender-se até a década de 1930, seus filmes foram produzidos em grande escala e tornavam-se um sucesso atrás do outro. Mas se a prosperidade em sua profissão era inegável, o mesmo não poderia ser dito de sua vida pessoal. É claro que os inúmeros romances com atrizes e aspirantes a estrelas da época faziam do ator um conquistador nato, porém sua predileção por adolescentes fez seu nome ser constantemente envolvido em escândalos. Seu primeiro casamento foi com Mildred Harris, então com 16 anos, em 1918. Ficaram juntos por apenas dois anos, separando-se em 1920. Sua segunda e mais conturbada união foi com Lita Grey, também de 16 anos, uma atriz iniciante que conhecera nos bastidores de A Corrida do Ouro (The Gold Rush, 1925).


Não que subir ao altar novamente fizesse parte dos planos de Chaplin naquele momento. Pego de surpresa com a notícia da gravidez da jovem após o breve romance entre os dois, ele acabou escolhendo a opção que lhe parecia menos penosa. Entre ir para a cadeira por ter relações sexuais com uma menor de idade ou casar-se com a futura mãe de seu filho, o ator de 35 anos decidiu-se pela segunda alternativa. O matrimônio ocorreu de maneira pouco inspiradora, às pressas e sigilosamente no México, para tentar abafar o escândalo, em 1924. Dois anos depois, tendo como frutos Charles Chaplin Júnior e Sydney Chaplin, o casamento chegou ao fim com ampla cobertura da mídia e um dos acordos de divórcio mais dispendiosos já vistos até então. 


Ao lado de sua terceira esposa, a atriz Paulette Goddard, de 25 anos, Chaplin parecia ter encontrado alguma felicidade conjugal. Extremamente animada e sorridente, Paulette ajudou o marido a reaproximar-se de seus filhos, com quem tinha uma relação pouco afetuosa. Mas as constantes infidelidades do ator acabaram afastando os pombinhos e o casamento iniciado em 1936 terminou amigavelmente após 6 anos.


Em 1942, Charlie Chaplin estava envolvido em seu mais novo projeto. À procura de uma atriz principal para a adaptação da peça Shadow and Substance, ele fora apresentado a uma bela moça de 17 anos, jovem demais para o papel, mas não para escapar de suas investidas. Entretanto, filha do conceituado dramaturgo Eugene O'Neill, Oona O'Neill não era apenas mais uma simples aspirante a atriz que cruzava seu caminho.


Com seu jeito inocente e seu sorriso radiante, Oona era a sensação do momento na alta-sociedade, tendo sido eleita a debutante número 1 da temporada 1942/ 1943 do Stork Club, evento que recebeu grande atenção da imprensa da época e lhe rendeu diversas ofertas de estúdios de cinema e agências de modelo. Circulando ao lado de nomes como Truman Capote e a socialite Gloria Vanderbilt, Oona era constantemente fotografada e citada em colunas de revistas. A glamourosa jovem atraía também a atenção de um bom número de pretendentes, como o cartunista Peter Arno, com quem chegou a ter um rápido relacionamento. Foi neste período que o então desconhecido JD Salinger entrou em sua vida. 


Quase uma década antes da publicação de sua obra mais famosa, O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye, de 1951), Salinger apaixonou-se perdidamente pela iluminada Oona. Encantado por sua beleza e por seu temperamento tranquilo, o autor encontrou na jovem seu par perfeito. Ela, por sua vez, admirava sua inteligência e seu talento para a escrita. Os dois logo começaram a namorar, porém a Segunda Guerra chegou como um balde de água fria para o casal, já que o rapaz havia sido recrutado para o exército. Durante o afastamento, ambos continuaram alimentando o romance através de cartas por alguns meses. Com o passar do tempo, as respostas de Oona foram ficando cada vez mais espaçadas e a paixão entre eles, ao menos por parte dela, esfriou consideravelmente. Algo na personalidade reclusa e questionadora no melhor estilo Holden Caulfield parou de soar atraente para a jovem.


Em contrapartida, no mesmo período, Oona começava a conhecer melhor uma das maiores lendas do cinema. Fazendo parte da estatística de moças jovens com histórico de problemas paternos que sentem-se atraídas por homens mais velhos, ela apaixonou-se rapidamente por Charlie Chaplin e, surpreendentemente, fora correspondida. Não momentaneamente correspondida, a despeito de mais uma relação superficial com uma adolescente, como tantas outras antes. De fato, apesar dos 35 anos de diferença que os separavam, os dois desenvolveram um amor verdadeiro um pelo outro, casando-se em 1943 e permanecendo juntos até a morte dele, em 1977. Juntos, tiveram oito filhos, dentre os quais a também atriz Geraldine Chaplin. Os amigos próximos e os filhos do casal impressionavam-se com a sintonia e a adoração mútua entre eles, fazendo crer que Chaplin realmente havia encontrado a estabilidade que tanto lhe  faltara em sua juventude.


Segundo seus biógrafos, Salinger, que casou-se três vezes ao longo de sua vida, nunca esqueceu o coração partido por sua namorada de juventude e chegou a referir-se amarga e ironicamente sobre o casamento entre Oona e Chaplin em algumas de suas cartas pessoais. Oona O'Neill aparece retratada nas cinebiografias produzidas sobre os dois homens de sua vida. Em Chaplin (1992), é interpretada pela atriz Moira Kelly, enquanto em Rebel in the Rye (2017), é Zoey Deutch quem a representa.